domingo, 19 de novembro de 2017

GEORGE SHERMAN EXUMA O HERÓI MEXICANO JOAQUÍN MURRIETA EM PRODUÇÃO ESPANHOLA

Um dos prazeres indiscutíveis da minha infância consistia em ir ao cinema com o pai, Altamyr Guimarães, também cinéfilo. Juntos assistimos, em 1965, no finado Cine Brasil de Viçosa/MG, ao western A morte de um pistoleiro (Joaquín Murrieta, 1964). Como quase sempre acontecia quando os filmes versavam sobre fatos e homens reais, ouvi uma preleção a respeito do personagem do título: fora-da-lei aos olhos dos estadunidenses que se apossaram da Califórnia e herói vingador para os mexicanos que a perderam. Marginalmente, a luta do biografado por justiça inspirou o autor Johnston McCulley a escrever, em 1919, o folhetim The curse of Capistrano, base para o lançamento do herói mascarado Zorro. Em 1965, com 9 anos, fiquei impressionado com A morte de um pistoleiro. Pareceu-me um western notável e algumas passagens permanecem indeléveis em minha memória. Acreditava que era produção estadunidense por causa do diretor George Sherman, do cartaz e dos atores principais. Muito depois descobri que é produção espanhola, hoje relegada à obscuridade. O ponto de vista impresso à narrativa é francamente favorável à luta de Joaquín Murrieta (ou Murieta), interpretado com correção e discrição por Jeffrey Hunter. Arthur Kennedy faz o inicialmente amigável Capitão Harry Love, xerife que se obrigará a persegui-lo. A apreciação a seguir é de 1974. 






A morte de um pistoleiro
Joaquín Murrieta

Direção:
George Sherman
Produção: 
Pro Artis Ibérica S. A.
Espanha — 1964
Elenco:
Jeffrey Hunter, Arthur Kennedy, Diana Lorys, Roberto Camardiel, Sara Lezana, Mike Brendel, Frank Braña, Gonzalo Esquiroz, Fernando Villena, Juan Cazalilla, Héctor Quiroga, Julio Pérez Tabernero, María José Collado, David Thompson, Andy Anza, Pedro Osinaga e os não creditados José Luis Chinchilla, Sancho Gracia, Jose Halufi, Rufino Inglés, Alfredo Muñiz, Guillermo Méndez, Enrique Santiago, Freddie Toehl.



Bastidores de O tesouro de Pancho Villa (The treasure of Pancho Villa, 1955)
O diretor George Sherman entre 
 Gilbert Rolland e Shelley Winters, intérpretes do Coronel Juan Castro e de Ruth Harris


Joaquín Murrieta (ou Murieta) Carrillo merece díspares considerações a depender das populações e dos lados da fronteira. Para os estadunidenses é simplesmente um bandoleiro. Já os mexicanos o têm na conta de herói, vingador e guerrilheiro. Chegou ao fim da vida assassinado, em 25 de julho de 1853, na zona fronteiriça entre México e Estados Unidos, vitimado por emboscada armada pela patrulha de rangers californianos organizada exclusivamente para prendê-lo ou eliminá-lo. A fama começou, segundo a maioria das versões, quando teve a área de garimpo atacada por estadunidenses. Sofreu brutal agressão e a esposa terminou estuprada e assassinada. No contexto de segregação racial que tinha os mexicanos por vítimas, sabia: jamais conseguiria reparação segundo os ritos formais da Justiça. Por isso, a vida de homem pacato mudou completamente. Armou-se, aprendeu a atirar e caçou com determinação os agressores, até matá-los. Foragido, passou os anos seguintes à frente de um grupo armado. Pretendia, em acordo com os relatos, retomar a Califórnia para o México.


Jeffrey Hunter na caracterização de Joaquín Murrieta


Pouco se sabe da vida de Joaquín Murrieta, transformada em lenda pela cultura popular mexicana quando ainda cavalgava. Foi enaltecida em versos, contos, livros, brochuras e canções. Entre os que o reverenciaram estão o compositor e cantor chileno Víctor Jara — com o corrido A Joaquín Murieta — mais o conterrâneo e poeta Pablo Neruda — a cantata Fulgor y muerte de Joaquín Murieta, recentemente interpretada e gravada por Olga Manzano e Manuel Picon. O personagem, provavelmente, inspirou Johnston McCulley em 1919, quando escreveu a novela popular The curse of Capistrano. Nesta, o herói mascarado e em trajes negros é o Zorro. O autor, por sua vez, teria se baseado em The life and adventures of Joaquín Murieta: the celebrated California bandit, escrito por John Rollin Ridge em 1854.


Joaquín Murrieta é símbolo da resistência de mexicanos espoliados e violentados pela prepotência econômica, militar e racial estadunidense. Segundo a Associação dos Descendentes que lhe leva o nome, assassinar gringos não era a sua missão. As campanhas que protagonizou, de cunho político e militar, visavam exclusivamente a reincorporação da Califórnia ao México. A região e outras áreas — cerca de um milhão e quatrocentos mil quilômetros quadrados — foram perdidas para os Estados Unidos em 1848, ao final de uma guerra de dois anos, pela assinatura do Tratado de Guadalupe Hildalgo. Em compensação, o país derrotado foi indenizado com módicos 15 milhões de dólares. Quanto aos mexicanos pobres, descendentes de índios, que habitavam as regiões anexadas, tiveram que se virar por conta própria — ainda mais com a afluência crescente de contingentes populacionais brancos. Em 1849 a marginalização dos nativos aumenta diante da descoberta de ouro — que eleva exponencialmente os habitantes da Califórnia — e a especulação fundiária. A situação pouca se altera quando o território se torna o trigésimo primeiro estado da União no ano seguinte. Os contextos social, político e econômico estavam preparados para o surgimento de Joaquín Murrieta.


Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) antes da "perder a inocência"

Rosita (Sara Lezana), esposa de Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter)

O xerife Capitão Harry Love (Arthur Kennedy)


Durante muitos anos pensei que A morte de um pistoleiro fosse produção estadunidense. Era o que sugeriam George Sherman na direção, o elenco capitaneado por Jeffrey Hunter e Arthur Kennedy, e o título supostamente original, apresentado nos cartazes e demais reclames publicitários como Murieta!. Estava com 9 anos quando o vi, em 1965. Fiquei impressionado com a exposição. Pareceu-me um western incomum. Algumas imagens ficaram indelevelmente gravadas na memória: a violência contra Joaquín (Hunter) e a esposa Rosita (Lejana), a cômica e fracassada sequência da tentativa de enforcamento de Garcia Três Dedos (Camardiel) e o epílogo, quando o moribundo protagonista informa ao Capitão Harry Love (Kennedy) que não houve quebra do acordo. Em 1974, quando iniciei a ampliação de dados das minhas anotações de cinema, tive dificuldades para levantar mais informações sobre a produção. Até então, registrava somente o título nacional, diretor, além de dois ou três nomes do elenco. Descobri, para meu espanto, que o título original é Joaquín Murrieta e a produção é espanhola, da Pro Artis Ibérica S. A., e não da Warner Brothers — cujo nome tinha primazia no cartaz. Essa era apenas a companhia distribuidora. Portanto, A morte de um pistoleiro, em analogia com o western spaghetti dos italianos, é um autêntico western paella. As externas foram obtidas em locações da Espanha: La Pedriza, Colmenar Viejo e Alméria, onde se ergueu a cidade cenográfica.


Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) e a esposa Rosita (Sara Lezana) assassinada

Joaquín Murrieta (Jeffrey Hunter) ante a sepultura da esposa Rosita (Sara Lezana)


A produção é tributaria do padrão ‘B’ de qualidade, ao qual George Sherman ficou praticamente relegado em toda a carreira. As exceções são a produção de Os comancheros (The comancheros, 1961), de Michael Curtiz, e a direção de Jake Grandão (Big Jake, 1971). Sherman começou no cinema em 1932, como diretor de segunda unidade e assistente de direção. Estreou na realização em 1937 e logo ganhou fama de profissional dos mais confiáveis. Notabilizou-se em filmes de ação e aventuras, geralmente westerns, alguns protagonizados por John Wayne.


Outras abordagens da lenda de Joaquín Murrieta tiveram vez no cinema estadunidense. A mais notória é de William A. Wellman, ainda assim deficitária: O bandoleiro do El Dorado (Robin Hood of El Dorado, 1936). Também há Jovial defensor (The gay defender, 1927), de Gregory La Cava, e o telefilme The desperate mission (1969), de Earl Bellamy. Warner Baxter encarnou o personagem no título de Wellman; Richard Dix e Ricardo Montalban nas incursões de La Cava e Bellamy, respectivamente.


Um ponto a ser imediatamente ressaltado na abordagem de George Sherman é o retrato simpático e francamente favorável a Joaquín Murrieta. Além da bela estampa de Jeffrey Hunter — provavelmente em tudo distante do real perfil do homem real — o que se vê é alguém covardemente agredido e injustiçado, ciente de que não conseguiria reparação numa sociedade racialmente cindida, com decisões jurídicas francamente favoráveis aos brancos. Nisso, até o amigo e xerife Capitão Harry Love se vê obrigado a lhe dar razão: também duvida da eficácia do tribunal no julgamento dos homens que o espancaram e lhe assassinaram a esposa. O próprio Love é obrigado a detê-lo quando faz justiça com as próprias mãos e em público.


Garcia Três Dedos (Roberto Camardiel) passa por cômica e frustrada execução na forca


A seguir, começa a saga do perseguido e se agiganta a figura do herói para os mexicanos. Escapa da prisão na companhia de homens que se tornarão seus auxiliares diretos: Garcia Três Dedos e Claudio (Osinaga). A evasão acontece graças à providencial intervenção de Kate (Lorys), personagem certamente improvável nessa história cheia de lances duvidosos. A partir daí não sobram alternativas para o profissional Capitão Love. Deverá deixar as considerações pessoais de lado e caçar para valer o fora-da-lei.


Um dos pontos mais interessantes de A morte de um pistoleiro é o processo que conduz à transformação do pacato mineiro em decidido vingador. George Sherman encena a passagem apenas com imagens que duram o tempo preciso. O homem ferido, tradicionalmente descalço e em vestes brancas de algodão — típicas do camponês mexicano —, chega à cidade. Paulatinamente, incorpora a frieza e o ethos de um gringo: calcula os movimentos, altera a indumentária, adota as cores escuras, aprende a jogar, torna-se ás no gatilho, incorpora a frieza ao comportamento e se capacita no poder intimidador do olhar. Infelizmente, quanto ao mais, não deixa de ser um filme corriqueiro. Sacrifica as importantes questões política e racial em favor do melodrama sobre as agruras de um homem afetivamente ferido, que direciona as ações motivado pela lembrança dolorosa da esposa assassinada e o consequente desejo de reparação e vingança além do ajuste de contas que o levou à prisão. Essa opção narrativa conduz a uma passagem no mínimo constrangedora. Gravemente ferido na cidade, após cometer ação tão impensada quanto desastrada, Joaquín busca abrigo nas instalações de Kate. Novamente é auxiliado por ela. Durante a convalescença, reflete sobre as ações praticadas. Ainda frágil, procura a sepultura de Rosita. É surpreendido pela voz de prisão de Love. O que se ouve a seguir é tão inacreditável quanto pusilânime: Murrieta jura que se regenerará, abandonará as armas e o território. Sensibilizado, o xerife o deixa livre. Mais adiante, com os ferimentos agravados, desmaia diante do bando, ao chegar ao esconderijo. É submetido a novo e longo tratamento. Nesse meio tempo os homens empreendem ações das quais o líder supostamente participa. Soa como rompimento do acordo. Desta vez a perseguição não conhecerá comiseração, até o previsível desfecho.


Apesar de amparado por orçamento modesto, A morte de um pistoleiro conta com eficaz aparato técnico e bons atores, inclusive os coadjuvantes. Fica-se a lamentar que a carreira cinematográfica de Jeffrey Hunter — o Martin Pawley de Rastros de ódio (The searchers, 1956), de John Ford, e o Jesus Cristo de O rei dos reis (King of kings, 1961), de Nicholas Ray — tenha praticamente estagnado em meados dos anos 60, deixando-o quase somente com alternativas na televisão. A interpretação de ator é discreta e sem exageros. Há muitos momentos de ação entremeados por trechos cômicos cinematograficamente bem resolvidos, principalmente o frustrado enforcamento de Garcia Três Dedos e o complicado processo de devolução das galinhas roubadas de Kate.


A improvável benfeitora Kate (Diana Lorys)


A pontuação musical de Antonio Pérez Olea é acertadamente evocativa e impregna as cenas com adequada atmosfera. Também merece elogios a direção de fotografia de Miguel Fernández Mila em perfeita consonância com o trabalho de câmera de Hans Burman. Este se sai muito bem, principalmente nos momentos de maior intimismo. As tomadas em primeiro plano de Joaquín e Rosita à beira do rio são comoventes e exemplares.





Roteiro: James O'Hanlon. Produção de linha: Francisco Molero. Produção executiva: José Antonio Sáinz de Vicuña. Música: Antonio Pérez Olea. Direção de fotografia (Eastmancolor, Cinemascope): Miguel Fernández Mila. Montagem: Alfonso Santacana. Direção de arte: Rafael Salazar. Decoração: Enrique Alarcón. Penteados: Dolores Clavel. Maquiagem: José María Sánchez. Gerente de produção: Augusto Boué. Administração da produção: Luis Herrero. Assistente de confecção de costumes: Delfín Prieto. Assistente de continuidade: Juana Moya. Assistente de decoração: Enrique Alarcón. Assistente de produção: Juan Jose Molina. Assistentes de câmera: Jose G. de la Cruz, Guillermo Pena. Assistentes de direção: Stan Torchia, Frederico Vaquero. Assistentes de montagem: Alicia Castillo, Margarita Ibáñez. Chefe de publicidade: Hugo Ferrer. Confecção de costumes: Magdalena Fernández, Catalina Moreno. Continuidade: Daniel Mendoza, Maria Wachman. Contrarregra: Vicente Gómez. Direção de dulabgem: Rafael de Penagos. Direção musical: Antonio Pérez Olea. Dublê: J. L. Chinchilla. Efeitos especiais: Manuel Baquero. Empresa de guarda-roupa: Peris Hermanos. Empresa de mobiliário e contrarregra: Vázquez Hermanos. Engenharia de som: Enrique Molinero. Estúdio de dublagem: Estudios EXA. Firmas de construção do set: Asensio Decoración, Lega-Michelena, Construcine. Fornecimento de material de iluminação: Ilucine S. A. Fotografia de cena: Julio Sánchez Caballero. Operador de câmera: Hans Burman. Referências sonoras: Jesús Ocaña. Ruídos de sala: Luis Castro. Secretário da produção: Jesús Sánchez. Segundo assistente de câmera: Santiago Zuazo. Segundo assistente de direção: Ricardo Baron. Segundo assistente de montagem: María Teresa Mateos. Segundo assistente de produção: Juan Ruiz. Tempo de exibição: 107 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)