domingo, 13 de agosto de 2017

ESTA É A ORDEM: ‘NINGUÉM MORRE!’ DURANTE “UM PASSEIO AO SOL”

Frente ao implacável ritmo da vida atual, o 3 de setembro de 1943 perdeu, certamente, importância e significado. A não ser para a extensa crônica da Segunda Guerra Mundial e memória de alguns poucos sobreviventes das forças dos Estados Unidos e Inglaterra desembarcadas em Salerno, Itália continental. Nesse dia os aliados iniciaram, enfim, a difícil retomada da Europa controlada pelo nazismo desde o início oficial dos conflitos há quatro anos. Das memórias do combatente e jornalista estadunidense Harry Brown, Robert Rossen extraiu enxuta e envolvente adaptação: o roteiro de Um passeio ao sol (A walk in the Sun, 1945), transformado em filme marcante por Lewis Milestone. O diretor levou às telas, quinze anos antes, o vigoroso libelo antibelicista Im westen nichts neues do autor alemão Erich Maria Remarque: Sem novidade no front (All quiet on the western front, 1930). Um passeio ao sol não guarda relações com o grosso das produções cinematográficas sobre a Segunda Grande Guerra. O tom espetacular e a solene grandiloquência foram deixados de lado. Ganha primazia a humana fragilidade de poucos marines em deslocamento por terreno desconhecido. Contam apenas com a ajuda de mapas pouco precisos e parcas informações complementares fornecidas pelo distante comando, mais as limitações da capacidade de observação para se anteciparem às inevitáveis e mortais surpresas da campanha. Submetem-se no mais das vezes a longas, intermináveis e tensas esperas sem que nada de extraordinário aconteça. Em geral, pouco é percebido ou como diagnostica o paramédico MacWilliams (Sterling Holloway): “O único problema é que nada podemos ver. Nós lutamos de ouvido”. A guerra desequilibra, dá nos nervos, fere a esperada integridade dos soldados obrigados a Um passeio ao sol. A realização de Milestone foi relançada em videodisco, no Brasil, com o nome de Caminhada sob o sol. A apreciação a seguir, de 1995, sofreu pequena atualização por meio de nota de pé de pagina em 2017.







Um passeio ao sol
A walk in the Sun

Direção:
Lewis Milestone
Produção:
Lewis Milestone, Samuel Bronston (não creditado)
Lewis Milestone Productions
EUA — 1945
Elenco:
Dana Andrews, Richard Conte, Sterling Holloway, George Tyne, John Ireland, Herbert Rudley, Lloyd Bridges, Norman Lloyd, Richard Benedict, Huntz Hall, James Cardwell, George Offerman Jr., Steve Brodie, Matt Willis, Chris Drake, Alvin Hammer, Victor Cutler, John Kellogg, Jay Norris e os não creditados James Base, Fred Carpenter, Dan Cassell, Harry Cline, Dick Daniels, Anthony Dante, Danny Desmond, Ray Elder, Jack Ellis, Dick Elmore, Bennett Green, Tommy Hagan, Robert Horton, Orn Huntington, John Laurenz, Harry Leonard, Gus Lombardo, Billy Lord, Robert Lowell, Grant Maiben, Burgess Meredith, Larry Murphy, Mickey Novak, Malcolm O'Guinn, Ted O'Shea, Foster H. Phinney, Dan Quigg, Russ Randall, Joe Roach, Ed Roge, Jerome Root, Luis Rosado, Fred Sanders, Jerry Sheldon, Jack Sterling, Don Summers, George Turner, Henry Vroom, Bob Wolfe, Robert Wright.



Bastidores de O tempo não apaga (The strange love of Martha Ivers, 1946)
O diretor Lewis Milestone com os atores Kirk Douglas, Van Heflin e Barbara Stanwyck



No cinema, um dos relatos mais realistas das vivências de soldados em combate é oferecido por Um passeio ao sol. O roteiro de Robert Rossen adapta com rara felicidade e praticamente ao pé da letra as memórias do jornalista estadunidense Harry Brown, publicadas em livro em 1944. Incorporado à infantaria de 1941 a 1943, o autor marcou presença no começo da campanha das forças aliadas na Europa a partir da invasão da Sicília, Itália. Estampou testemunho pródigo e revelador das sensações mais íntimas e profundamente humanas dos combatentes — indivíduos comuns, submetidos a situações em tudo extraordinárias e traduzidas como medos, saudades de casa, aguçado instinto de sobrevivência, pesar pela morte de companheiros e o inevitável trauma das batalhas.


Aqueles que tiveram a oportunidade de ler as páginas de Brown sabem o quanto Robert Rossen e o diretor Lewis Milestone foram fieis e devidamente enfáticos na tarefa de vertê-las para a tela. Um passeio ao sol não trata de grandes e violentos combates; muito menos descreve atos sobre-humanos elevados à condição de heroicos. Apenas observa o soldado em lento e arriscado avanço por terreno desconhecido, descortinado pelo poder da nem sempre exata acuidade visual — ainda mais quando os riscos do inesperado podem irromper a qualquer instante. Além do alcance da observação está o desconhecido, certeza que afeta os nervos — principalmente dos feridos por dentro, espiritualmente fragilizados por muitos horrores e traumas testemunhados nos incontáveis campos percorridos em muitas campanhas. O senso de orientação às vezes falha, apesar dos mapas e das vagas informações complementares recebidas. Os homens sabem apenas que devem chegar em determinado lugar e executar a missão com o máximo de cautela e eficácia.


Lewis Milestone dirigiu um dos mais importantes filmes de guerra: Sem novidades no front (All quiet on the western front, 1930). Com a parceria de Joris Ivens, em 1942, realizou um dos melhores documentários sobre a resistência russa ao invasor nazista: Our Russian front. Também dramatizou a guerra em Revolta! (Edge of darkness, 1943), Mais forte que a vida (The purple heart, 1944), Arco do triunfo (Arch of Triumph, 1948), Até o ultimo homem (Hall of Montezuma, 1951) e Os bravos morrem de pé (Pork Chop Hill, 1959). Os temas bélicos, com aventuras passadas na retaguarda ou vanguarda dos conflitos, são praticamente a sua especialidade.


Um passeio ao sol é título dos mais pessoais e prestigiados da filmografia de Milestone. Passados pouco mais de 50 anos da época em que foi concebido, ainda assombra por qualidades como a objetiva simplicidade da exposição, a humanidade dos personagens — captados em suas singularidades —, as interpretações verdadeiras e a composição pictórica.


Conta história passada do começo da alvorada até aproximadamente o meio-dia de 3 de setembro de 1943. Nessa data acontece o desembarque aliado em Salerno, Itália continental. Os esquadrões, dispostos em variadas barcaças de assalto, convergem dos navios de transporte para a praia. Do conjunto, seguindo as linhas mestras de Harry Brown, Milestone isola o Pelotão Lee — formado por 53 fuzileiros, quase todos texanos. Desde o mar o agrupamento perdeu os principais homens em comando, atingidos pelo fogo inimigo. Depois de encontrar abrigo precário a poucos metros da praia conflagrada, aguarda o nascer do sol para o cumprimento da tarefa designada: avançar cerca de seis milhas (10 quilômetros) continente adentro para destruir ponte estratégica e imobilizar ninho alemão de metralhadoras em casa de fazenda.


Um passeio ao sol é incomum. As cenas iniciais, de apresentação dos créditos, evidenciam de imediato essa qualidade. Um narrador — voz do ator Burgess Meredith — apresenta os personagens e lhes realça as particularidades individuais. Estas, geralmente, são as primeiras vítimas nunca contabilizadas da guerra. Raras produções sobre conflitos armados se preocupam tanto em humanizar os combatentes como a presente realização de Lewis Milestone. Ao longo de 117 minutos o espectador se posiciona ao lado de homens comuns: fazendeiros, estivadores, professores, coveiros, operários etc. Foram convocados a tomar parte de um teatro de operações distante muitos quilômetros das interioranas cidadezinhas dos EUA nas quais estão profundamente enraizados. Para casa desejam voltar o quanto antes. Todos são destituídos de patentes. O posto mais elevado é o de sargento: Tyne (Andrews), Ward (Bridges) e Porter (Rudley). Os demais são praças: Rivera (Conte), Freedman (Tyne), Windy Craven (Ireland), MacWilliams (Holloway), Archembald (Lloyd), Tranella (Benedict) etc.


Dana Andrews como o Sargento Bill Tyne

Lloyd Bridges como o Sargento Ward

John Ireland como o praça Windy Craven

Richard Conte como o praça Rivera


Tiros, rajadas, chamas, fumaça, explosões e similares costumam caracterizar a guerra cinematográfica como exercício de efeitos carregados de grandiosidade. Porém, são totalmente destituídos de espetacularidade em Um passeio ao sol. Geralmente fornecem a tônica das produções mais escapistas e descompromissadas do gênero. Promovem, via de regra, a valorização de uma estética vazia, desprovida de sentido e posta unicamente a serviço da elevação da temperatura emocional e da taxa de adrenalina das plateias em busca de catarse. Para Lewis Milestone, só possuem sentido se servem para caracterizar o que pode ser chamado de “névoa da guerra” ou se colaboram para traduzir o horror produzido nos homens. Devem contribuir para delinear a psicologia dos personagens.


O negrume da fumaça dos bombardeios, o detonar dos morteiros, o zunir das balas e a metralha dos aviões realçam, em Um passeio ao sol, a inquietação de personagens diante da perspectiva da morte iminente. Geram melancolia, medo, angústia, pânico, apreensão, fraqueza, desespero e expectativa. São longos os momentos de espera — nos quais nada ou tudo pode acontecer —, geralmente ao rés-do-chão, os rostos em contato com ervas e insetos. Milestone revela a fragilidade de homens acuados, aos quais só é dada uma opção: seguir em frente e executar a missão, não importam os custos e as perdas — inclusive as vidas dos companheiros mais chegados. “Ninguém morre”, dizem uns aos outros, nem que seja como mero subterfúgio ilusório.


Provavelmente, o mais pavoroso de uma guerra é a impossibilidade de se ter uma dimensão real da conflagração desenrolada à distância ou nas proximidades. Em geral, percebe-se o caos, mas as fontes geradoras se encontram ocultas no mais das vezes. Do inimigo — quase sempre um igual — não se vê o rosto. Podem ser divisados pela exposição de membros dos corpos sem vida, como as mãos inertes que escapam do interior de veículos destruídos ou das janelas de abrigos conquistados. São presenças incômodas. Lembram que o oponente também é revestido de humanidade. As mãos sempre possuíram crucial importância para Lewis Milestone, desde o exemplar epílogo de Sem novidades no front.


O medo e a ânsia provocados por algo oculto, entretanto vivo e presente, transparecem significativamente na sequência em que Tyne e MacWilliams tentam apreender os eventos passados do outro lado da pequena elevação que guarnece a trincheira protetora. Cada qual reage de diferentes maneiras à tensão. Tyne pouco fala. Apenas observa as gigantescas cortinas de fumaça negra que encobrem o horizonte. Por sua vez, MacWilliams libera a palavra. Oferece descrição tão assustada quanto precisa da guerra: “Gostaria de saber o que está acontecendo lá embaixo. (...). Deve estar um espetáculo (...). Pelo menos sabemos onde as coisas estão. Você está aqui e as bombas estão do outro lado. É simples. Você está aqui enquanto os rapazes são mortos onde se encontram. É tudo muito simples. (...). O único problema é que não podemos ver nada. Esse é o problema com a guerra. Nunca se consegue ver nada. Nós lutamos de ouvido. Temos que adivinhar o que se passa. Temos que adivinhar e imaginar a cena”.


O paramédico McWilliams (Sterling Holloway)

O Sargento Bill Tyne (Dana Andrews) e McWilliams (Sterling Holloway)



Um passeio ao sol é admirável. Soa verdadeiro com a discreta narração de Burgess Meredith, a ilustrativa balada interpretada por Kenneth Spencer, a imagem propositalmente suja da perspicaz fotografia em preto e branco de Russell Harlan. Acima de tudo é um pequeno e honesto filme. Não é mobilizado por palavras de ordem alusivas a heroísmo, patriotismo e covardia. Nem mesmo os inimigos são demonizados. Já se sabe que são representações do nazismo e pronto. Os marines do Pelotão Lee são apenas sujeitos que tentam sobreviver. Estão cientes da situação que os enreda, como se fossem partes ínfimas de uma trama gigantesca, assumidamente perigosa e mortal. Gostariam de estar em casa, às voltas com as vidinhas pacíficas e comuns. No entanto, estão obrigados ao cumprimento da missão que os envolve — sobre a qual possuem pouca ou nenhuma capacidade de controle.


A simplicidade narrativa é um dos principais atrativos de Um passeio ao sol, inclusive os personagens arquetípicos. Podem ser previsíveis em suas particularidades de gente comum, facilmente notada em qualquer grupamento. Porém, parece renovada pelo talento da direção. Caricaturas e estereótipos grosseiros são evitados. Os soldados são dotados de personalidades próprias que se desenvolvem lentamente perante a câmera, até se apresentarem como indivíduos únicos em vivências, queixas, esperanças e saberes. Merecem destaques: Archimbeau — constantemente aposta no caráter interminável da guerra a ponto de acreditar que todos estarão combatendo no Tibet na década de 50; Rivera — responsável pela metralhadora, é irrefreável filador de cigarros do parceiro Tranella (Richard Benedict) e autor da emblemática exortação “Ninguém morre”, a todo momento repetida; Windy Craven — sem condições de escrever para a namorada em virtude das tensões do desembarque e da caminhada, mas em permanente elaboração mental de cartas que um dia tomarão forma no papel; sargento Ward — louco para saborear uma maçã, bom agricultor, conhecedor das potencialidades dos diversos solos e ciente de que o terreno sobre o qual caminham não se presta a qualquer tipo de cultivo; o tenso sargento Eddie Porter — já lutou muitas guerras, agora jaz vencido pelo stress traumático; todos sabem que não é um covarde, mas alguém ferido na alma; sargento Bill Tyne — improvisado inesperadamente como líder do pelotão e em luta para não ser derrotado pelos temores que começam a envolvê-lo; e, por fim, o sempre apavorado e falador paramédico McWilliams — fatalmente abatido na praia em decorrência da curiosidade. Aparentemente, Dana Andrews tem o papel principal. Porém, os demais atores com diálogos possuem tempos equilibrados de exposição.


O sargento Bill Tyne (Dana Andrews) diante do corpo de McWilliams (Sterling Holloway)

Deitado, sofrendo de stress traumático, o Sargento Eddie Porter (Herbert Rudley) e, à direita, o praça Archimbeau (Norman Lloyd)


Um passeio ao sol foi listado pela estadunidense National Board of Review como um dos dez mais importantes filmes apresentados em 1946. Mereceu do British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) a indicação ao prêmio de Melhor Roteiro em 1952[1].





Música: Frederic Efren Rich. Balada-título: Millard Lampell (letra), Earl Robinson (música), Kenneth Spencer (intérprete). Direção de fotografia (preto e branco): Russel Harlan. Roteiro: Robert Rossen, a partir do romance homônimo de Harry Brown. Montagem: Ducan Mansfield. Direção de arte: Max Bertish. Instrutor: Serge Betersson. Assistente de direção: Maurie Suess, Sam Nelson (não creditado). Gravação de som: Corson Jowett. Gerente de produção: Joseph H. Nadel. Guarda-roupa: Sam Benson (não creditado). Mixagem musical: Elmer Raguse (não creditado). Prompter: Serge Bertensson. Consultoria técnica: Coronel Thomas D. Drake, Louis Walters (não creditado). Presidente da Lewis Milestone Productions: David Hersh. Assistente para o produtor: Nate Watt (não creditado). Jurisdição da produção: International Alliance of Theatrical Stage Employees (IATSE). Agradecimentos especiais ao: Forças Armadas dos Estados Unidos, Exército dos Estados Unidos (não creditado). Sistema de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 117 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1995)



[1] Nota de atualização de 2017: Um passeio ao sol, em 2016, foi incluído no rol de filmes de preservação obrigatória da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, o National Filme Registry. 

domingo, 6 de agosto de 2017

APESAR DAS LIMITAÇÕES DO ROTEIRO E DA PRODUÇÃO, UM WESTERN À FRENTE DO SEU TEMPO

Em 1995, Todd Robinson realizou o documentário Wild Bill: Hollywood maverick, dedicado à memória do rebelde e atualmente esquecido cineasta William A. Wellman. Aqueles que o viram certamente guardam a lembrança da menção a uma das mais divertidas e fétidas vinganças desferidas por um diretor contra um produtor. Cansado de ser sabotado pelo todo-poderoso chefe de produção da 20th Century-Fox, Wellman foi aos arredores de Hollywood e abarrotou uma carroça com estrume fresco. Pela janela, despejou tudo na sala do big boss Darryl F. Zanuck. Piloto de aviação durante a Primeira Guerra Mundial, William Wellman — apelidado de Wild Bill — integrou a lendária Esquadrilha Lafayette. No cinema, teve apreço aos temas da aeronáutica. Porém, sempre preferiu o western. Deu vida a cerca de quinze títulos ambientados na fronteira ocidental dos Estados Unidos, dentre os quais Consciências mortas (The Ox-Bow incident, 1943) — precisa e eficaz abordagem crítica de um dos “esportes” mais praticados nas áreas sem lei do país: o linchamento. Em 1944, 32 anos antes da desmistificação de Robert Altman endereçada a William Frederick Cody (Buffalo Bill) em Oeste selvagem (Buffalo Bill and the indians, or Sitting Bull’s History Lesson), Wellman tentou se antecipar à era dos westerns revisionistas. Infelizmente, os produtores não permitiram a pretendida demolição pioneira da imagem do famoso batedor e caçador em Buffalo Bill. Apesar disso, teve a coragem de apresentar digno e inédito retrato da humanidade dos índios. Também identificou os motivos que os impulsionaram à guerra contra o projeto colonizador: a ameaça do fantasma da fome devido à indiscriminada matança dos animais que lhes forneciam alimentos e a expropriação de terras por empreendedores capitalistas do Leste. O personagem-título, representado por Joel McCrea, recebe abordagem contraditória. No entanto, considerada a época, são inesquecíveis as falas de Mão Amarela (Anthony Quinn), chefe Cheyenne, quando a guerra se torna inevitável: “Há maneiras mais dignas de morrer do que pela fome”. Esta apreciação a Buffalo Bill foi escrita em 1983.







Buffalo Bill
Buffalo Bill

Direção:
William A. Wellman
Produção:
Harry A. Sherman
20th. Century-Fox
EUA — 1944
Elenco:
Joel McCrea, Maureen O’Hara, Linda Darnell, Anthony Quinn, Thomas Mitchell, Edgar Buchanan, Moroni Olsen, Frank Fenton, Matt Briggs, George Lessey, Frank Orth e os não creditados Carl Andre, Arthur Aylesworth, Evelyn Beresford, Edward Biby, Sidney Blackmer, Billy Bletcher, Eddie Borden, George Bronson, Lyle Brown), Nora Bush, Jack Carry, Wheaton Chambers, George Chandler, Freddie Chapman, Ben Corbett, Frank Cordell, John Dilson, Larry Dods, Lester Dorr, Tatzumbia Dupea, Elmer Ellingwood, John Epper, George Fiske, Vincent Graeff, Fred Graham, Jesse Graves, William Haade, Reed Hadley, Cordell Hickman, Stuart Holmes, Robert Homans, Don House, Jack House, Gordon Jones, Eddie Juaregui, Fred Kennedy, Jack Kenny, John Konorez, Larry Lawson, Arthur Loft, Gerald Mackey, James Magill, Chief Many Treaties, Mae Marsh, Margaret Martin, Kermit Maynard, Frank McCarroll, Pat McKee, Merlyn Nelson, Eddie Nichols, Georgie Nokes, Cliff Parkinson, Bob Perry, Paul Power, John Reese, Walt Robbins, Merrill Rodin, Syd Saylor, Phil Schumacher, Audrey Scott, Jack Shannon, Clint Sharp, George Sherwood, Bhogwan Singh, Joe P. Smith, Charles Soldani, Edwin Stanley, Count Stefenelli, Harry Strang, Nick Thompson, Chief Thundercloud, Harry Tyler, Cecil Weston, Buster Wiles, Henry Wills, Thomas Alan Yazloff.



O piloto, cineasta e rebelde William A. Wellman



O cineasta William A. Wellman sempre esteve à vontade nos ares da aviação. Piloto condecorado, ganhou fama pelo ainda vibrante e vigoroso Asas (Wings, 1927) — primeira produção premiada com o Oscar de Melhor Filme. Também voou em A legião dos condenados (The legion of the condemned, 1928), Águias modernas (Young eagles, 1930), Atração dos ares (Central Airport 1933), Conquistadores do ar (Men with wings, 1938), Águias de fogo (Thunder Birds: soldiers of the air, 1942), O rompe nuvens (This man's navy, 1945), Gloriosa jornada (Gallant journey, 1946), O preço da glória (Battleground, 1949), Geleiras do inferno (Island in the sky, 1953) e Um fio de esperança (The high and the mighty, 1954). Na Europa, durante a Primeira Guerra Mundial, integrou a famosa Esquadrilha Lafayaette cujos feitos exaltou em seu último filme: Lutando só pela glória (Lafayette Escadrille, 1958).


Apesar da afinidade aos temas da aeronáutica, Wellman sempre manifestou maior predileção pelo western. Um balanço pouco criterioso por uma filmografia de 83 títulos (1920-1958) destaca 15 produções ambientadas no Velho Oeste: The twins of Suffering Creek, de Scott R. Dunlap — participou como diretor não creditado —, The man who won (1923), Big Dan (1923), Not a drum was heard (1924), The vagabond trail (1924), The circus cowboy (1924), A caravana (The conquerors, 1932), Viva Villa! (Viva Villa!, 1934), de Jack Conway — teve participação não creditada na direção, tal qual Howard Hawks — O bandoleiro do El Dorado (Robin Hood of El Dorado, 1936), Consciências mortas (The Ox-Bow incident, 1943), Buffalo Bill, Céu amarelo (Yellow sky, 1948), Assim são os fortes (Across the wide Missouri, 1951), O poder da mulher (Westward the women, 1951) e Dominados pelo terror (Track of the cat, 1954).


Buffalo Bill encontra lugar na fase mais consistente da filmografia de Wellman: o período entre Nasce uma estrela (A star is born, 1937) e Um fio de esperança. Surgiu após a concisa obra mestra Consciências mortas, incomum western de denúncia sobre a popularíssima prática estadunidense do linchamento. O realizador jamais foi simpático a William Frederick Cody, o Buffalo Bill. Pretendia apresentar um retrato desmistificador e anti-heroico do famoso batedor e caçador. Seria um filme crítico, baseado em roteiro muito à frente de seu tempo, sobre um impostor mitômano, bêbado e bravateiro — um dos principais responsáveis pela dizimação da cultura indígena no Oeste dos Estados Unidos. Infelizmente, os produtores — principalmente o todo poderoso chefe da 20th Century-Fox, Darryl F. Zanuck — não autorizaram a abordagem iconoclasta.


Mesmo assim, Wellman não se entregou por completo. Expôs um retrato heroico de Buffalo Bill, em acordo com a mitologia forjada pela literatura popular de autores como Ned Buntline (Mitchell) e que abriram ao personagem o caminho para a glória. Entretanto, fez um filme corajosamente pioneiro ao assumir inédito ponto de vista favorável aos índios com a denúncia dos massacres que sofreram. William Frederick Cody, interpretado com garbo por Joel McCrea, surge pelas mãos de Wellman como um indivíduo contraditório e dividido. Aparentemente é um ingênuo facilmente manipulado por forças organizadas à sua revelia quando não se apresenta também na pele de um fanfarrão. Admirava o Oeste e a cultura indígena, mas não conseguiu se separar dos compromissos assumidos com militares e negociantes do Leste. Estes queriam o apaziguamento forçado de Cheyennes e Sioux para se apropriar de terras ricas em recursos naturais segundo a lógica da acumulação demandada pela dinâmica do grande capital. Sabia que a matança indiscriminada e generalizada de bisões — incorretamente chamados de búfalos — por comerciantes de peles e caçadores atraídos de todas as partes do mundo ameaçaria gravemente a sobrevivência dos nativos por deixá-los à beira da fome e da guerra em prol da sobrevivência. Apesar disso, guiou e organizou caçadas, protegeu os interesses do espoliador empreendimento ferroviário e auxiliou a cavalaria nas muitas campanhas organizadas contra os nativos. Considerava-se amigo pessoal de Mão Amarela (Quinn), chefe Cheyenne. No filme, chega a defendê-lo contra a prepotência zombeteira de negociantes e oficiais militares. Exige que o honrem como "príncipe de seu povo", digno de tratamento à altura. Porém, na tristemente famosa batalha de Warbonnet Creek (1876) — na qual os guerreiros da tribo foram praticamente liquidados pela cavalaria guiada por Cody — não titubeou em atrai-lo para o combate corpo a corpo quando o matou e escalpelou. Nesta ocasião, diante dos corpos sem vida de muitos índios, afirmou pesaroso: "Todos eles eram meus amigos".


Joel McCrea como William Frederick Cody, o Buffalo Bill 

Buffalo Bill (Joel McCrea) e Mão Amarela (Anthony Quinn), chefe Cheyenne


As intenções de Wellman são evidenciadas desde a abertura. Os créditos são apresentados sobre a imagem de um índio vencido, a cavalo, praticamente sem forças para suportar o peso da lança que carrega. É uma dolorosa representação da derrota. Trata-se de escultura de James Earle Fraser denominada End of the trail. Está exposta em Waupun, estado do Wiscosin, e integra o acervo oficial de monumentos e lugares históricos dos Estados Unidos.


Se Buffalo Bill mereceu um retrato dividido, os índios têm absoluta certeza do papel a desempenhar diante de um futuro pouco promissor. Não lhes restam opções que não a guerra pela preservação de um modo de vida. Cheyennes e Sioux não são meras abstrações para William Wellman. Até então, os peles vermelhas eram retratados nos westerns apenas como indistintas e adversas forças da natureza, prontas a serem vencidas e removidas a todo custo em prol da consolidação de um projeto civilizador e de ocupação revestido de aura sagrada. Recebem agora, do cinema hollywoodiano, uma exposição praticamente inédita: são seres humanos à beira do extermínio em decorrência da inanição e expropriação de bens materiais e culturais. Partem para a guerra em defesa própria. Diante da exposição ao fantasma da fome por causa da indiscriminada e irracional matança de bisões, Mão Amarela comenta quando Sioux e Cheyennes consolidam uma aliança: “Há maneiras mais dignas de se morrer”.


Apesar de apoiada em fatos, a história em tela é ficção romanceada. Assemelha-se aos populares folhetins baratos que tanto sucesso fizeram no Leste dos Estados Unidos e elevaram William Frederick Cody à posição de herói nacional. A narrativa é organizada de forma episódica. Destaca os principais acontecimentos da vida do personagem em acordo com as linhas gerais do roteiro. No plano afetivo, a vida amorosa de Pakasha — denominação recebida dos Cheyennes — não é esquecida, apesar de pouco corresponder à realidade. O filme começa quando trava contato pela primeira vez com a futura esposa, Louisa Frederici (O’Hara), ao salvá-la do belicoso assédio de índios embriagados. É filha do senador Frederici (Olsen), porta-voz de capitalistas interessados na expansão dos negócios pela fronteira ocidental do país, principalmente os relacionados às ferrovias e ao lucrativo mercado de peles para a confecção de roupas de luxo.


Louisa Frederici (Maureen O'Hara) e Buffalo Bill (Joel McCrea)


Um momento particularmente bem humorado e inteligente do roteiro mostra como Buffalo Bill e Louisa foram levados ao casamento. Nada como a colaboração de um cavalo sagaz e a demonstração prática do uso peças rituais— uma flauta e uma manta — por jovens Cheyennes enamorados e interessados em selar o pacto matrimonial. Infelizmente, os momentos felizes da união conjugal duram pouco. Louise abandona o Oeste, insatisfeita com os longos períodos que deixam o marido afastado de casa em virtude dos constantes compromissos assumidos com empresários e militares. Parte para Washington com Kit Carson Cody, o filho recém-nascido. No filme, a cisão acontece quando Buffallo Bill praticamente a abandona à própria sorte, pouco tempo após o parto, para atender à convocação do General Blazier (Briggs). Deverá se unir ao exército na campanha desencadeada contra os índios responsáveis pela derrota e morte de George Armstrong Custer em Little Big Horn.


Além de Maureen O’Hara, outra presença feminina amorosamente interessada em Buffalo Bill é Linda Darnell em papel mal aproveitado: a jovem Cheyenne e professora Estrela do Amanhecer. Certamente, a atriz foi imposta à produção pelo namorado, o big boss Darryl F. Zanuck. Amarga ressentimento pelo fato de não ser branca, conforme se manifesta para Louise. Entrou no filme sem que roteiristas e diretores soubessem exatamente o que fazer com ela. É responsável por alguma tensão motivada por ciúmes e sem maiores consequências. Praticamente desaparece durante o resto da ação até ser localizada entre os mortos da batalha de Warbonnet Creek.


Joel McCrea no papel de William Frederick Cody e Maureen O'Hara como Louisa Frederici Cody

Buffalo Bill (Joel McCrea) e Estrela do Amanhecer (Linda Darnell)


No filme, a batalha de Warbonnet Creek é um divisor de águas. O conflito é fundamental à consolidação do personagem como herói de dimensão nacional. Daí em diante a narrativa abandona o Oeste. William Frederick Cody parte para Washington, convocado pelo Presidente da República. Receberá a Medalha de Honra do Congresso. Durante a viagem, toma ciência do quanto se tornou famoso graças ao sucesso de vendas das histórias de Ned Buntline a respeito de suas proezas. Pode-se dizer que perde a inocência e não será mais o responsável exclusivo por seu próprio destino ao se tornar fenômeno da cultura de massas. Agora outros falarão por ele e a fidelidade aos fatos se torna apenas detalhe de menor importância. Separar a realidade do mito — forjado como se tivesse existência própria — será cada vez mais difícil. Por isso, Buffalo Bill também conhecerá o inferno do qual tentará inutilmente escapar.


Ned Buntline (Thomas Mitchell), Louisa Frederici (Maureen O'Hara) e Buffalo Bill (Joel McCrea)


A estadia em Washington corresponde a longo período de acúmulo de insatisfações. Em meio às muitas homenagens que recebe, promovidas por capitalistas e políticos, toma consciência do quanto foi usado em proveito de terceiros no projeto geral da conquista do Oeste e extermínio da cultura indígena em particular. Envergonhado e arrependido, tenta se redimir com declarações que atacam frontalmente os interesses empresariais e honram a dignidade e nobreza dos nativos derrotados. Em meio a tantos dissabores toma conhecimento da morte do filho Kit Carson Cody, acometido de difteria — enfermidade típica de espaços urbanos densamente povoados e com condições sanitárias inadequadas. Tomado pela dor, culpa Louise pela perda. No ambiente mais saudável do Oeste nada de mal teria acontecido, alega.


Ao luto se somam os impactos da pesada campanha de difamação por parte da imprensa, bancada por negociantes e políticos que atacou como assassinos e usurários. Abandonado e sem dinheiro, é despejado do hotel. Após perambular pelas ruas qual vagabundo, é atraído ao stand de tiro de um parque de diversões. Quase é preso sob a acusação de roubo quando tenta empenhar a Medalha do Congresso por alguns trocados. Mas tem a chance de provar que é o famoso e exímio atirador Buffalo Bill. Sem opções imediatas de sobrevivência, é contratado como atração circense por Mr. Sherman (Orth). Assim é localizado por Louise, ocasião em que se reconciliam. Ela tenta convencê-lo a voltar ao Oeste. Recusa, por se considerar indigno para a região e sua gente. Porém, aceita o conselho de Ned Buntline: organizar um show permanente e itinerante com o propósito de exibir ao público do Leste encenações da história e cultura do Oeste, as guerras e a vida dos índios. Apoiado no próprio mito será a principal atração. Nasce assim, em 1883, o Oeste Selvagem ou Buffalo Bill’s Wild West Show, sucesso nacional e internacional. Percorre os Estados Unidos, Canadá e a Europa. Em 1887 se apresentou em Londres durante as celebrações do jubileu da Rainha Vitória e para o papa Leão XIII, no transcorrer de 1890, em Roma. Buffalo Bill se converte em bem sucedido pioneiro e empresário do moderno show business.


A narrativa avança até a recriação da derradeira apresentação de William Frederick Cody no Buffalo Bill’s Wild West Show, em 1917. O personagem, ostentando vasta cabeleira grisalha, comunica a aposentadoria ao público. Pretende viver no Oeste, na companhia de Louise, até o fim da vida. William Wellman confessou visível vergonha com o epílogo. De fato, não é fácil de engolir a cena do garoto de muletas (Graeff, não creditado) se erguendo na arquibancada para saudar o personagem com “Deus também te abençoe, Buffalo Bill". “Senti-me absolutamente enjoado”, declarou o diretor — como se pedisse desculpas pela encenação de algo tão constrangedor.


William Frederick Cody, o Buffalo Bill (Joel McCrea)


Em compensação, em outra passagem envolvendo crianças, Wellman foi particularmente justo e generoso. Inseriu um negro (Hickman, não creditado) na turma de pequenos fãs deslumbrados com as histórias contadas por Buffalo Bill. Inclusive permitiu ao personagem um curto e normal diálogo. A tomada, rápida, é marcante para a época. Passagens assim só se tornariam mais corriqueiras no cinema estadunidense após a deflagração da campanha pela ampliação dos direitos civis, praticamente 15 anos após a realização de Buffalo Bill.


Apesar de todos os senões, a produção tem qualidades. A principal, evidentemente, é a atribuição de valor positivo aos índios em sua luta pela sobrevivência. A representação física dos guerreiros também merece elogios. Não são figurantes brancos caracterizados, mas Navajos contratados para viver os Cheyennes e Sioux. O mestiço Anthony Quinn no papel de Mão Amarela também é escolha fenotipicamente bem acertada. Aliás, foi a segunda vez do ator no papel de um guerreiro Cheyenne. A primeira, de 1936, se deu em Jornadas heroicas (The plainsman), sob a direção do futuro sogro Cecil B. De Mille. No ano seguinte Quinn contraiu matrimônio com Katherine De Mille. Curiosamente interpretou, três anos antes de Buffalo Bill, outro índio famoso: o chefe de guerra Cavalo Louco, dos Sioux, em O intrépido General Custer (They died with their boots on), de Raoul Walsh.


Joel McCrea está correto. Tem a vantagem do imponente físico e a aparência estoica, condizentes com a imagem fixada pelo imaginário para Buffalo Bill. Provavelmente, é um dos melhores papéis do ator.


As externas, no que diz respeito à ambientação no Oeste, foram tomadas em locações no Utah, Arizona e Montana pelo mestre na direção de fotografia Leon Shamroy, em vivo Technicolor. As lentes captam com realismo as batalhas encenadas de forma espontânea, sem traços de espetaculosidade combinada entre oponentes. Duas forças se digladiam em campo relativamente aberto, sobre o leito de um rio, na climática batalha de Warbonnet Creek. Certamente, como deve ter acontecido na realidade, não foi confronto dos mais ordenados. O que se vê é um brutal choque entre o azul da cavalaria e as cores vivas dos Cheyennes, todos a cavalo e captados por uma câmera em tudo dinâmica e objetiva. É uma das melhores sequências bélicas dos westerns.


Linda Darnell como Estrela do Amanhecer


É um filme desigual. Na tentativa de contornar as dificuldades de um roteiro com o qual não concordava, William Wellman tentou atribuir marca crítica e pessoal a Buffalo Bill. De certa forma conseguiu, ao retratar os índios com valores positivos. Porém, havia um limite bem vigiado pelos produtores, além do qual a conhecida rebeldia do realizador não conseguiria ultrapassar. Às vezes não é somente um contraditório William Frederick Cody que se vê em tela, mas um personagem claudicante que luta para não destoar da imagem que a história oficial lhe reservou, ao menos até o momento da realização. O final, com as bênçãos do garoto de muletas lançadas ao envelhecido caçador e batedor, revela que o retrato oficial prevaleceu. Mesmo assim, é impossível não esquecer a imagem do índio estropiado na sequência de abertura, bem como as falas de Mão Amarela a respeito de formas mais nobres de se morrer que não as resultantes da conformação da existência — ou o que resta dela — a uma pouco gloriosa e indigna submissão coroada por mendicância e fome.





Roteiro: Aeneas MacKenzie, Clements Ripley, Cecile Kramer, com base em história de Frank Winch. Contribuição ao roteiro: John Francis Larkin (não creditado). Produção executiva: Darryl F. Zanuck (não creditado). Música: David Buttolph. Direção de fotografia (Technicolor): Leon Shamroy. Montagem: James B. Clark. Direção de arte: James Basevi, Lewis Creber. Decoração: Thomas Little. Figurinos: Rene Hubert. Maquiagem: Guy Pearce. Gerente de unidade: Sid Bowen (não creditado). Gerentes de produção (não creditados): R. L. Hough, Charles Stallings. Direção de segunda unidade: Otto Brower. Assistentes de direção (não creditados): Joseph C. Behm, William Eckhardt. Associado à decoração: Fred J. Rode. Supervisão de construções: Ben Wurtzel (não creditado). Som: Alfred Bruzlin, Roger Heman Sr. Efeitos especiais fotográficos: Fred Sersen. Dubles (não creditados): Ben Corbett, Frank Cordell, John Epper, George Fiske, Fred Graham, Jackie Hamblin, Howard Hill, Jack House, Eddie Juaregui, Fred Kennedy, Kermit Maynard, Frank McCarroll, Cliff Parkinson, Phil Schumacher, Audrey Scott, Jack Shannon, Clint Sharp, Joe Smith, Buster Wiles, Henry Wills. Guarda-roupa: Sam Benson (não creditado). Joias: Eugene Joseff (não creditado). Gerente de locações: Ray C. Moore (não creditado). Direção musical: Emil Newman. Música adicional: Arthur Lange (não creditado). Orquestração (não creditada): Arthur Morton, David Raksin. Direção de Technicolor: Natalie Kalmus. Associado à direção de Technicolor: Richard Mueller. Consultoria técnica (não creditada): Joe De Young, J.G. Taylor, Chief Thundercloud. Assistente para Harry A. Sherman: Dick Dickson (não creditado). Expert em arco e flecha: Howard Hill (não creditado). Estúdio de mixagem de som: Western Electric Recording. Tempo de exibição: 90 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1983)

domingo, 30 de julho de 2017

OS HORMÔNIOS DO DESEJO EXPLODEM NA TENSÃO DA BUSCA ÀS LENDÁRIAS MINAS DE SALOMÃO

Esqueçam todas as demais adaptações cinematográficas do clássico romance juvenil da época de ouro do moderno colonialismo europeu, As minas do Rei Salomão (King Solomon’s mines), de Henry Rider Haggard. Os filmes de Horace Lisle Lucoque — King Solomon’s mines (1919) —, Robert Stevenson — As minas de Salomão (King Solomon’s mines, 1937) —, Alvin Rakoff — King Solomon’s treasure (1979) — e J. Lee Thompson — As minas do Rei Salomão (King Solomon’s mines, 1985) — são desvitalizados se comparados ao empreendimento de 1950, por conta dos diretores Compton Bennett e Andrew Marton. Traz no elenco o inglês Stewart Granger no papel do aventureiro e guia de safáris Allan Quatermain e a escocesa Deborah Kerr como personagem inexistente no texto original: Elizabeth Curtis, determinada e carente esposa do explorador Henry Curtis — desaparecido no norte da África quando tentava encontrar as míticas minas do título. Atualmente, filmes assim foram praticamente retirados da agenda hollywoodiana, principalmente por força da correção política. O herói é um europeu generoso e paternalista, supostamente superior às gentes e aos costumes africanos. Apesar dos senões reafirmados pela passagem dos anos, é uma aventura de primeira grandeza. Resistiu inclusive à traumática substituição de diretores quando as filmagens se encontravam razoavelmente avançadas. A fotografia, por conta do expert Robert Surtees, é um deleite. O principal atrativo são as alusões implícitas ao sexo, decorrentes acima de tudo das carências da voluntariosa Elizabeth Curtis — há muito afastada do marido e tão próxima do decidido Allan Quatermain. Subjugada pelo desejo, a personagem praticamente se derrete sob o calor e a umidade da África. O elenco é composto por imponentes integrantes das tribos Watusi e Kipsigi. A apreciação a seguir é de 1996.






As minas do Rei Salomão
King Solomon’s mines

Direção:
Compton Bennett, Andrew Marton
Produção:
Sam Zimbalist
Metro-Goldwyn-Mayer
EUA — 1950
Elenco:
Stewart Granger, Deborah Kerr, Richard Carlson, Hugo Haas, Lowell Gilmore, Kimursi (da tribo Kipsigi), Siriaque (da tribo Watusi), Sekaryongo (da tribo Watusi), Baziga (da tribo Watusi) e os não creditados Munto Anampio, John Banner, Benempinga, Gutare, Ivargwema, Henry Rowland.



Os diretores Compton Bennett e Andrew Marton



O inglês Compton Bennett se lançou no cinema como montador, em 1940. Entre os filmes que dirigiu está O sétimo véu (The seventh veil, 1945), obra mestra para muitos.


O húngaro Andrew Marton estreou na realização cinematográfica em 1929, nos Estados Unidos, com o pouco conhecido Às duas horas da madrugada (Two o'clock in the morning). A seguir, na Alemanha, rodou Die nacht ohne pause em parceria com Franz Wenzler. Também assinou produções na Áustria, Hungria e Suíça. Em decorrência do avanço nazista, abandonou a Europa Central e se estabeleceu na Inglaterra. Em 1940 atendeu ao convite do também expatriado Ernst Lubitsch e voltou para os Estados Unidos — onde se fixou —, dedicando-se inicialmente à montagem. Retornou à direção no mesmo ano com Um pedacinho do céu (A little bit of heaven). Seguiram-se Uma estranha amizade (Gentle Annie, 1944) e Presente do destino (Gallant Bess, 1946). Porém, é na direção de segunda unidade que adquiriu notoriedade, principalmente em superproduções como Adeus às armas (A farewell to arms, 1957), de Charles Vidor; Ben-Hur (Ben-Hur, 1959), de William Wyler; O mais longo dos dias (The longest day, 1963) — do qual também é diretor junto com Ken Annakin, Elmo Williams, Bernard Wicki e Gerd Oswald —; 55 dias em Pequim (55 days at Peking, 1963), de Nicholas Ray; A queda do Império Romano (The fall of the Roman Empire, 1963), de Anthony Mann; e Ardil 22 (Catch 22, 1970), de Mike Nichols[1]. Durante muitos anos mereceu louvores pela sequência mais espetacular de Ben-Hur: a corrida de quadrigas. Hoje, sabe-se, foi idealizada, planejada e executada por Yakima Cannut — expert em lutas, movimentos e instrução de vários cowboys da tela, dentre os quais John Wayne. Em 1967 assinou Jim, um cowboy na África (África: Texas style), retorno à temática e ao cenário de As minas do Rei Salomão em época contemporânea.


Ambos os diretores não formam propriamente uma parceria em As minas do Rei Salomão. Na verdade, Compton Bennett foi demitido por pressão de Stewart Granger com as filmagens já em estágio avançado. Ambos se desentenderam, o que terminou inviabilizando a continuidade dos trabalhos. Convocado como substituto, Andrew Marton devolveu o empreendimento aos trilhos. Apesar desse grave acidente de percurso, a realização não peca pela falta de unidade. É uma das melhores aventuras cinematográficas ambientadas na África. Produções como essa Hollywood não faz mais, principalmente em virtude da pressão proveniente da correção política. A fórmula foi perdida, excetuando-se, evidentemente, Steven Spielberg com a trilogia dedicada a Indiana Jones: Os caçadores da arca perdida (Raiders of the lost ark, 1981); Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984); e Indiana Jones e a última cruzada (Indiana Jones and the last crusade, 1989).


O irregular J. Lee Thompson, em 1985, levou às telas uma esquecível refilmagem de As minas do Rei Salomão, protagonizada por Richard Chamberlain no papel do guia de safáris e aventureiro Allan Quatermain e a então desconhecida Sharon Stone como Jesse Huston. Se houvesse a necessidade de optar entre os canastrões que melhor estampa cinematográfica ofereceram ao personagem criado pelo escritor vitoriano Henry Rider Haggard no livro King Solomon’s mines, de 1885, Chamberlain perderia feio para Stewart Granger[2]. Por sua vez, Sharon Stone não faria sombra à classuda e excelente Deborah Kerr.


O canastrão Stewart Granger faz o melhor Allan Quatermain do cinema

Deborah Kerr como Elizabeth Curtis e Stewart Granger no papel de Allan Quatermain

John Goode (Richard Carlson), Elizabeth Curtis (Deborah Kerr) e Allan Quatermain (Stewart Granger)


Quando veio ao mundo, na Inglaterra, o melhor intérprete de Allan Quatermain recebeu o nome de James Stewart. Porém, ao entrar para o cinema percebeu a existência de ator mais famoso e muito melhor com igual denominação. Assim nasceu Stewart Granger, hoje reconhecido, com toda a justiça, como um dos melhores “não atores” do cinema. Protagonizou ótimas e inconsequentes aventuras de capa e espada que fizeram a alegria da garotada no tempo das matinês: Sarabanda (Saraband for dead lovers, 1948), de Basil Dearden; O belo Brummell (Beau Brummell, 1954), de Curtis Bernhardt; Scaramouch (Scaramouch, 1952), de George Sidney; O prisioneiro de Zenda (The prisioner of Zenda, 1952), de Richard Thorpe; e O tesouro de Barba Rubra (Moonfleet, 1954), de Fritz Lang. Como cowboy estrelou o memorável western A última caçada (The last hunt, 1955), de Richard Brooks. Sofreu o dissabor de interpretar Claudius em Salomé (Salome, 1953), de William Dieterle — uma das mais ridículas produções de todos os tempos.


A tensão entre Elizabeth Curtis (Deborah Kerr) e Allan Quatermain (Stewart Granger) diante do testemunho de John Goode (Richard Carlson)

  
Stewart Granger vinha se consolidando no cinema inglês desde 1933, quando teve participação não creditada no elenco do filme de estreia: The song you gave me, de Paul L. Stein. Atuou em outras 23 realizações até estrear em Hollywood com As minas do Rei Salomão. É aventura desenrolada nas paragens africanas em 1897. Teve tomadas em locações na Tanganica, Uganda, Quênia e Congo Belga. Narra a busca pelo explorador inglês Henry Curtis, dado como desaparecido em área pouco conhecida — pelos europeus — do continente desde que se propôs a encontrar as lendárias minas do título. A esposa Elizabeth Curtis (Kerr) — acompanhada do irmão John Goode (Carlson) — oferece a Allan Quatermain cinco mil libras esterlinas para organizar operação de busca e salvamento pelo norte do continente. O original de Henry Rider Haggard privilegia somente a missão repleta de perigos e muitos imprevistos. O filme de Bennett e Marton, extraído do roteiro de Helen Deutsch, é recheado de conotações implícitas ao sexo graças à inserção de Elizabeth Curtis, estranha ao texto original. No calor e umidade da África, a voluntariosa mulher, há muito afastada do marido, exala carência e arde de desejo por Quatermain, de quem, a princípio, não alimentava a menor simpatia. Diálogos ambíguos, gestos, olhares enviesados e desviados traduzem de forma brilhantemente cômica, principalmente para o espectador de hoje, os sinais da mal disfarçada atração libidinosa extravasada pela personagem. O explorador logo compreende a mensagem e imediatamente corresponde, tornando o jogo mais complicado e constrangedor para a cliente. Afinal, internado naquelas lonjuras, o desinibido Quatermain também extravasa carências. Sua história, como o de muitos aventureiros da ficção, é desconhecida, assim como os motivos que o levaram a se internar no coração da África. Provavelmente, por desilusão amorosa ou para expiar alguma falta grave há muito cometida. Sabe-se apenas que tem um filho na Inglaterra, a quem periodicamente envia auxílio financeiro.



Acima e abaixo: John Goode (Richard Carlson), Elizabeth Curtis (Deborah Kerr) e Allan Quatermain (Stewart Granger)


As minas do Rei Salomão é aventura em tudo empolgante. Se o espectador desligar o senso crítico, fica ainda melhor. Como quase todas as miradas ocidentais sobre a África, ressalta a etnocêntrica superioridade do europeu concebido como protetor de um continente povoado de gente acossada por superstições e incessantes dissidências tribais. Quatermain é praticamente uma espécie de “grande pai branco”, generoso e cheio de si. Está ligado ao mesmo percurso trilhado por Tarzan, Jim das Selvas, Trader Horn e outras criações de autores ocidentais do período colonialista moderno. Uma fala do personagem traduz bem esse espírito. Quando a expedição é atacada por um feroz rinoceronte que provoca a fuga dos carregadores negros, Quatermain grita: “Eu não pedi que corressem; se o homem branco pode ficar parado vocês também podem!” Membros da realeza nativa atuam em As minas do Rei Salomão: Siriaque, chefe do clã Mashona da tribo Watusi, no papel de Umbopa príncipe destronado que se junta à expedição e, ao final, lutará por seus direitos; Kimursi, da tribo Kipsigi; além de Sekaryongo e Baziga, também integrantes dos Watusi.


Allan Quatermain (Stewart Granger), Elizabeth Curtis (Deborah Kerr), John Goode (Richard Carlson) e Umbopa (Siriaqui, chefe Watusi)

Umbopa (Siriaqui, chefe Watusi), à esquerda


O acabamento técnico-artístico da produção é de primeira. As cores, as paisagens africanas e a encenação do perigo se revelam com notável nitidez na fotografia de Robert Surtees, premiada com o Oscar. É digna de nota a arrojada e realista sequência do estouro dos animais em fuga pela savana em chamas, um assombro para a época. Também merece destaque a direção de arte, feliz em captar motivos da cultura africana: os trajes e, principalmente, as danças tribais executadas pelos gigantescos guerreiros Watusi.


As minas do Rei Salomão concorreu ao Oscar de Melhor Filme de 1950. Porém, a arrojada aventura de Compton Bennett e Andrew Marton não era páreo para o grande vencedor: A malvada (All about Eve), de Joseph L. Mankiewicz. Competia ainda com outros pesos-pesados: Nascida ontem (Born yesterday), de George Cukor e, principalmente, a cáustica radiografia de Billy Wilder sobre Hollywood: Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard).


Em 1959, Kurt Newmann dirigiu Watusi — o gigante africano (Watusi), espécie de refilmagem em tom infinitamente menor de As minas do Rei Salomão, estrelada por George Montgomery como Harry Quatermain e a finlandesa Taina Elg no papel de Erica Neuler. É produção que lançou mão, sem a menor cerimônia, de várias cenas do filme de Compton Bennett e Andrew Marton.






Roteiro: Helen Deustch, com base na novela homônima de H. Ruder Haggard. Direção de fotografia (Technicolor): Robert Surtees. Consultores de Technicolor: Henri Jaffa, James Gooch. Direção de arte: Cedric Gibbons, Paul Groesse. Montagem: Ralph E. Winters, Conrad A. Nervig. Supervisão de gravação: Douglas Shearer. Decoração: Edwin B. Willis, associado a Keoch Gleason. Costumes: Walter Plunkett. Música: Mischa Spoliansky (não creditado). Segundo assistente de direção: Carl 'Major' Roup (não creditado). Construção do set: Donald P. Desmond (não creditado). Supervisão de gravação: Douglas Shearer. Dublês (não creditados): Michaela Denis (p/Deborah Kerr, Shep Houghton (p/Richard Carlson). Operadores de câmeras (não creditado): Frank V. Phillips, John Schmitz. Assistente de câmera pela Technicolor: Cliff Shirpser (não creditado). Consultor técnico: Bunny Allen (não creditado). Continuidade nas locações africanas: Eva Monley (não creditado). Agradecimentos da Metro-Goldwyn-Mayer aos: Funcionários governamentais da Colônia do Congo Belga, Funcionários governamentais da Colônia e Protetorado do Quênia; Funcionários governamentais de Tanganica; Funcionários governamentais do Protetorado da Uganda. Sistema de mixagem de som: Western Electric Sound System. Tempo de exibição: 103 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1996)



[1] EWALD FILHO, Rubens. Dicionário de cineastas. São Paulo: Global, 1977. p. 277.
[2] Dentre outras versões da obra de Henry Ryder Haggard, Allan Quatermain foi interpretado por Albert Lawrence em King Solomon’s mines (1919), de Horace Lisle Lucoque; Cedric Harwicke em As minas de Salomão (King Solomon’s mines, 1937), de Robert Stevenson; e David McCallun no obscuro King Solomon’s treasure (1979), de Alvin Rakoff.