domingo, 20 de maio de 2018

A DISNEY NOS ESFORÇOS PELA INDEPENDÊNCIA DA IRLANDA NO SÉCULO XVI

O produtor, diretor e roteirista irlandês Michael O'Herlihy teve a carreira praticamente limitada aos telefilmes e às telesséries. Graças à Walt Disney Productions, realizou para o cinema o hoje obscuro O valente Príncipe de Donegal (The fighting Prince of Donegal, 1966). O personagem-título, interpretado por Peter McEnery, passou à história como Red Hugh O’Donnell, sucessor do rei Hugh Roe O’Donnell da localidade de Tyrconnell, atual Donegal. Corria o quarto final do século XVI. Segundo lenda local, a hora da independência irlandesa, com a unificação de diversos clãs rivais pela casa O’Donnell, aconteceria quando Hugh assumisse por direito o trono de Hugh. O roteiro de Robert Westerby extraído da novela Red Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley, toma várias liberdades históricas. A principal, talvez, é elevar a idade do personagem principal para a faixa dos 20 e poucos anos. Na verdade, estava com apenas 15 quando os ingleses o aprisionaram em Dublin. Escapou com a ajuda dos O’Neill. Conseguiu a unidade dos clãs e significativas vitórias contra o invasor. Contou inclusive com o apoio militar espanhol. O valente Príncipe de Donegal aborda rapidamente a ascensão de Red Hugh ao trono e os esforços pela unificação nacional. Detém-se por tempo considerável no período da prisão. Após a fuga, resume os esforços para a retomada do castelo da família, no qual a mãe (Peggy Marshall) e a prometida Kathleen McSweeney (Susan Hampshire) são mantidas na situação de reféns. Há boa reconstituição de época e adequada valorização da cor local com destaque para o mítico verde-esmeralda irlandês. O valente Príncipe de Donegal encerra um período no qual a Disney, por imposições fiscais, se valeu dos recursos cinematográficos e naturais britânicos para a realização de alguns filmes desde que adentrou na ficção live action com A ilha do tesouro (Treasure island, 1950), de Byron Haskin. Segue apreciação firmada em 1976.






O valente Príncipe de Donegal

The fighting Prince of Donegal

Direção:
Michael O'Herlihy
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA, Inglaterra — 1966
Elenco:
Peter McEnery, Susan Hampshire, Tom Adams, Gordon Jackson, Andrew Keir, Norman Wooland, Bill Owen, Richard Leech, Peggy Marshall, Peter Jeffrey, Maurice Roëves, Marie Kean, Donal McCann, Fidelma Murphy, John Forbes-Robertson, Patrick Holt, Robert Cawdron, Maire O'Neill, Maire Ni Ghrainne, Roger Croucher, Keith McConnell, Inigo Jackson, Peter Cranwell e o não creditado Peter Brooks. 



O diretor Michael O'Herlihy


Por causa de imposições fiscais que retinham no Reino Unido considerável parte dos lucros de filmes da Walt Disney Productions aí exibidos, a empresa abriu a unidade de produção com atores reais e iniciou as atividades naquele país em 1950. Assim, poderia movimentar parte do capital não repatriado. Cerca de oito títulos foram filmados em locações e estúdios britânicos, começando por A ilha do tesouro (Treasure island, 1950), de Byron Haskin. Seguiram-se: Robin Hood, o justiceiro (The story of Robin Hood and his merrie men, 1952), de Ken Annakin; Entre a espada e a rosa (The sword and the rose, 1953), de Ken Annakin; O grande rebelde (Rob Roy: the highland rogue, 1953), de Harold French; A espada de um bravo (Kidnapped, 1960), de Robert Stevenson; O príncipe e o mendigo (The Prince and the pauper, 1962), de Don Chaffey; O cavaleiro da máscara negra (Dr. Syn, alias the Scarecrow, 1963); de James Neilson; O segredo das esmeraldas negras (The moon-spinners, 1964), de James Neilson; e, por fim, O valente Príncipe de Donegal.


Peter McEnery e Susan Hampshire nos papéis de Red Hugh O'Donnell e Kathleen McSweeney


Por trás da realização de Michael O'Herlihy há a real história do nobre jovem irlandês Red Hugh O’Donnell (1571-1602), filho do rei Hugh Roe O’Donnell da localidade de Tyrconnell, atual Donegal. Segundo os relatos, a família, desde 1500, tentava inutilmente atrair vários clãs rivais para costurar uma forte oposição militar e política aos invasores ingleses. Hugh Roe abdicou, isolando-se em um mosteiro. Red Hugh o sucedeu. Era a confirmação de uma lenda: Quando Hugh assumir o lugar de Hugh, é sinal de que chegou o momento de esquecer diferenças e desavenças locais. Os clãs deveriam ter apenas uma bandeira comum: a independência. Corria o ano de 1587. O jovem Príncipe de Donegal contava apenas 15 anos quando foi aprisionado no castelo do Vice-Rei Sir John Perrott (Wooland), em Dublin, por ordem da temerosa rainha Elizabeth I. Escapou em 1591 para ser imediatamente recapturado. Com a ajuda do clã O’Neill empreendeu nova e vitoriosa fuga em 1592. Tornou-se, aos 20 anos, The O'Donnell, Lord of Tyrconnel. Unificados os clãs, declarou guerra aos ingleses em 1593. Nos anos seguintes, principalmente entre 1596 e 1598, venceu os invasores em sucessivas batalhas. Apesar do reforço espanhol, não conseguiu evitar a derrota em 1602. Red Hugh O’Donnell buscou refúgio na Espanha. Enquanto negociava novo apoio militar de Felipe III, contraiu misteriosa enfermidade e faleceu. Segundo alguns historiadores, a morte resultou de envenenamento por um agente inglês infiltrado na corte. Não deixou herdeiros.


O valente Príncipe de Donegal tem roteiro de Robert Westerby extraído da novela Red Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley. Tomou liberdades excessivas com os fatos, principalmente com a idade do personagem. Representado pelo esquálido e pouco convincente Peter McEnery, aparenta pouco mais de 20 anos ao cair prisioneiro dos ingleses. No filme, a sucessão acontece pelo falecimento de Hugh Roe O’Donnell. Red Hugh tenta levar adiante os esforços em prol da união dos clãs quando é capturado. Cerca de 50 minutos da trama são reservados às sequências no cárcere vigiado pelo pérfido Capitão Leeds (Jackson). Aí, passado algum tempo, o líder irlandês recebe a companhia dos também forçados Henry O'Neill (Adams) e Sean O’Toole (McCann). Foge com Henry graças ao valioso auxílio do carcereiro e servente Martin (Roëves).


Norman Wooland como Sir John Perrott

 Henry O'Neill (Tom Adams), Sean O'Toole (Donal McCann) e Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery)

Lord McSweeney (Andrew Keir) e filha Kathleen McSweeney  (Susan Hampshire)


A jornada ao encontro da segurança é pontuada de percalços e alguns momentos de morna comicidade garantidos por Henry O’Neill. Os instantes decisivos se resumem à batalha pela recuperação do castelo dos O’Donnell, ocupado pelos ingleses e onde a mãe de Red Hugh, princesa Ineen (Marshall), e a prometida Kathleen McSweeney (Hampshire) são mantidas na situação de reféns.


A princesa Ineen (Peggy Marshall) e Kathleen McSweeney  (Susan Hampshire)


Filmado nos estúdios Pinewood e arredores do condado rural inglês de Iver Heath em Buckinghamshire, O valente Príncipe de Donegal tem convincente reconstituição de época e não descuidou da mítica cor local irlandesa: o verde-esmeralda, presente desde a sequência de abertura e preservada na aparência geral das paisagens. Infelizmente, a Walt Disney Productions perdeu a oportunidade de realizar uma boa aventura de capa-e-espada a partir de uma história em tudo promissora. O diretor Michael O’Herlihy até se esforça para ousar um pouco mais em um produto destinado ao consumo familiar. Porém, sente-se que foi contido. Os personagens irlandeses são enquadrados no modelo tão estereotipado pelo cinema: emotivos, beberrões, sentimentais, briguentos e bem humorados. Essa caracterização, dramática e comicamente tão adequada em filmes de John Ford, aqui não diz a que veio, apesar do talento de Andrew Keir no papel de Lord McSweeney. Tom Adams, o respiro cômico, é pouco aproveitado. A mocinha Kathleen McSweeney é vivida por uma insossa Susan Hampshire. Há brilho nos desempenhos de Donal McCann e Maurice Roëves, apesar de lhes sobrar pouco tempo em tela. Gordon Jackson tem oportunidades de demonstrar valor com mais intensidade. Afinal, os personagens malvados em histórias sobre feitos de gente heroica e boazinha são sempre os mais interessantes.


O bonitinho Peter McEnery não emplacou. Exame superficial de sua filmografia revela que teve poucas chances no cinema. Terminou restrito aos telefilmes e telesséries. Antes de viver Red Hugh O’Donnell teve papel de coadjuvante no notável Meu passado me condena (Victim, 1961), de Basil Dearden, e fez par romântico de Hayley Mills na razoável aventura disneyana O segredo das esmeraldas negras. Quando embarcou na aventura irlandesa de Michael O'Herlihy, havia experimentado o melhor momento na ocasião no fraco O perigoso jogo do amor (La curée, 1966), de Roger Vadin. O problema da atuação de McEnery em O valente Príncipe de Donegal resulta da opção de querer projetar mais um rosto simpático e sorridente e não necessariamente o líder arrojado e compromissado na luta pela independência da Irlanda.


Na prisão, Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) é  submetido ao algoz Capitão Leeds (Gordon Jackson)

O acerto de contas de Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery)  com o Capitão Leeds (Gordon Jackson)


A direção de fotografia de Arthur Ibbetson e a trilha musical de George Bruns, baseada em temas tradicionais irlandeses, são pontos a destacar. A realização é, no mais das vezes, diversão descompromissada para espectadores pouco exigentes. É pena que os resultados gerais sejam tão corriqueiros. Havia potencial para retratar com mais substância uma época e um personagem tão pouco conhecidos.


Red Hugh O'Donnell (Peter McEnery) e  Kathleen McSweeney  (Susan Hampshire)

  
Para finalizar, uma curiosidade: o ator Mark Eden foi obrigado a abandonar as filmagens logo no início. Assim, perdeu um contrato de cinco anos com a Walt Disney Productions. Por obra do azar, torceu o tornozelo e terminou imobilizado após afundar a perna numa toca de coelho.





Roteiro: Robert Westerby, baseado na novela Red Hugh, Prince of Donegal, de Robert T. Reilley. Direção de fotografia (Technicolor): Arthur Ibbetson. Operador de câmera: Freddy Cooper. Direção de arte: Maurice Carter. Figurinos: Anthony Mendleson. Efeitos fotográficos especiais: Peter Ellenshaw. Montagem: Peter Boita. Música: George Bruns. Orquestração: Walter Sheets. Produção associada: Hugh Attwooll. Maquiagem: Harry Frampton. Penteados: Eileen Warwick. Continuidade: June Faithfull. Casting: Maude Spector. Primeiro assistente de montagem: Peter Keen (não creditado). Gravação de som: Ken Rawkins. Mixagem de som: Gordon K. McCallum. Gerente de produção: David C. Anderson. Assistente de direção: David Bracknell. Co-produção: Bill Anderson. Decoração: David Ffolkes. Segundo assistente de direção: Carl Mannin (não creditado). Terceiro assistente de direção: Michael Meighan (não creditado). Edição de som: Peter Keen. Operador de câmera sonora: Ted Karnon (não creditado). Operador de boom: Charlie McFadden (não creditado). Mixagem da combinação de sons: Otto Snel (não creditado). Dublês: Bill Weston, Richard O'Brien (acrobacias/não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Bill Knowles, Bert Mason, Alec Mills, Ron Robson. Fotografia de cena: Ricky Smith (não creditado). Direção musical: Eric Rogers. Secretaria de produção: Amy Allen (não creditada). Estúdio de mixagem de som: RCA Sound Recording. Tempo de exibição: 110 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976)

domingo, 13 de maio de 2018

ENZO G. CASTELLARI PÕE CHUCK CONNORS NA RETAGUARDA DA GUERRA DE SECESSÃO

É muita ação, quase ininterrupta. O diretor Enzo G. Castellari está entre os muitos realizadores revelados pelo cinema popular italiano ao longo dos anos 60. Começou nos westerns europeus e logo diversificou as preferências por aventuras de guerra, thrillers, comédias eróticas e dramas policiais. É uma das referências básicas do reciclador Quentin Tarantino, para o qual atuou em Bastardos inglórios (Inglourious Basterds, 2009). Seu verdadeiro nome é Enzo Girolami. Usou a alcunha E. G. Rowland ao dirigir, ainda no início da carreira, Texas 1867 (7 winchester per un massacro, 1967). Infelizmente, ainda desconheço um dos seus trabalhos mais festejados: o spaghetti western Keoma (Keoma), de 1976. Mate todos eles e volte só (Ammazzali tutti e torna solo/Mátalos y vuelve, 1968), coprodução entre Itália e Espanha, é aventura espalhafatosa desenrolada nos bastidores da Guerra de Secessão. As tropas confederadas estão à míngua. Por insistência do Capitão Lynch (Frank Wolf) o agente especial Clyde McKay (Chuck Connors) é contratado para uma missão praticamente impossível: apoderar-se de considerável quantidade em ouro das forças da União. Será apoiado por cinco especialistas cheios de disposição. Porém, nem tudo será tão simples. Para espectadores pouco exigentes, a realização é um prato cheio. Enzo G. Castellari domina o artesanato e tem perfeito controle dos elementos cênicos. Há boa utilização das locações no Desierto de Tabernas em Almeria, Espanha. Para registrar os mais intensos momentos da ação por ângulos os mais diversos, o trabalho de câmera não decepciona. Porém, convenhamos! Segue apreciação escrita em 1976.





Mate todos eles e volte só

Ammazzali tutti e torna solo/Mátalos y vuelve

Direção:
Enzo G. Castellari
Produção:
Edmondo Amati
Fida Cinematografica (Roma), Centauro Films (Madri)
Espanha, Itália — 1968
Elenco:
Chuck Connors, Frank Wolff, Franco Citti, Giovanni “Ken Wood” Cianfriglia, Leo Anchóriz, Alberto Dell'Acqua, Hércules Cortés, Antonio Molino Rojo, Furio “Men Fury” Meniconi, Alfonso Rojas, Ugo Adinolfi, John Bartha e os não creditados Nestore Cavaricci, Sergio Citti, Vincenzo Maggio, Osiride Pevarello, Pietro Torrisi.



O diretor Enzo G. Castellari


Aos apreciadores de filmes repletos de ação física quase ininterrupta, que não se valem de maiores e melhores considerações, Mate todos eles e volte só é excelente pedida. O que sobra de tiros, socos, pauladas, emboscadas, acrobacias e explosões não está no gibi. Mal há tempo para o espectador pouco exigente perceber o quanto é ruim, apesar do bom domínio dos elementos cênicos pelo diretor Enzo G. Castellari. É, acredito, a única experiência do ator estadunidense Chuck Connors no western europeu.


Chuck Connors vive Clyde McKay

Frank Wolf no papel do Capitão Lynch

                                                                            
Pouco expressivo, Connors acumula longa trajetória no cinema estadunidense desde a estreia como oficial da polícia no divertido A mulher absoluta (Pat and Mike, 1952), de George Cukor. Marcou presença em outras realizações para a tela grande durante os anos 50, quando a TV praticamente o absorveu em diversas telesséries. Teve papéis secundários e participações especiais em Gunsmoke, Climax!, Caravana (Wagon train), Hey, Jeannie!... Ganhou notoriedade ao protagonizar, de 1958 a 1963, os 168 episódios das cinco temporadas de O homem do rifle (The rifleman), criação de Arnold Laven com produção da Levy-Gardner-Laven para a Four Star Productions.


Para o cinema, as realizações mais destacadas que contaram com Connors, geralmente como coadjuvante, foram até o momento: O ocaso de uma alma (Good morning, Miss Dove, 1955), de Henry Koster; Ódio e ternura (Three stripes in the Sun, 1955), de Richard Murphy; Teu nome é mulher (Designing woman, 1957), de Vincente Minnelli; O meu melhor companheiro (Old yeller, 1957), de Robert Stevenson; Da terra nascem os homens (The big country, 1958), de William Wyler; Eu, ela e a outra (Move over, Darling, 1963), de Michael Gordon; e No mundo de 2020 (Soylent Green, 1973), de Richard Fleischer.


A ação se desenrola na retaguarda da Guerra Civil Americana

Clyde McKay (Chuck Connors)




Mate todos eles e volte só é o sexto filme do diretor Enzo G. Castellari, conhecido como ator pelo nome real de Enzo Girolami. Estreou na realização em 1966, sem levar crédito: Poucos dólares para Django (Pochi dollari per Django), de León Klimovsky. Sob a alcunha de E. G. Rowland fez Texas 1867 (7 winchester per un massacro, 1967). Logo vieram Vou, mato e volto (Vado... l’ammazzo e torno, 1967), Deus criou o homem e o homem criou o colt (Quell sporca storia nel West, 1968) e Vou, vejo e disparo (I ter che sconvolsero Il West (Vado, vedo e sparo), 1968). Após Mate todos eles e volte só, Castellari diversificou os interesses por outros gêneros populares: aventuras de guerra, thrillers, comédias eróticas e dramas policiais. Aguarda-se para breve, nos cinemas brasileiros, a estreia de Keoma (1976), apontado pela impressa estrangeira como promissor retorno ao western made in Europa.


Mate todos eles e volte só tem desenvolvimento trivial. Chuck Connors faz Clyde McKay, espécie de agente secreto contratado pelas falidas forças confederadas. Lidera um grupo de cinco especialistas dispostos a tudo: Hoagy (o pasoliniano Franco Citti), certeiro laçador e atirador de pesos; Deker (Anchóriz), tarimbado no uso de explosivos; o mestiço Blade (Cianfriglia), perito no manuseio de facas; o musculoso Bogart (Cortés); e o acrobata e pistoleiro Kid (Dell'Acqua). A história começa com a equipe oferecendo surpreendente demonstração de competência ao capturar o quartel comandado pelo General Hood (ator não creditado e não identificado). Foi contratada pelo Capitão Lynch (Wolf), planejador de arriscada missão a ser executada na retaguarda das linhas inimigas: dominar um comando nortista e se apossar da fortuna em ouro escondida em embalagens de dinamite. Entre marchas e contramarchas a empreitada é executada com sucesso. No entanto, McKay terá problemas mais complicados. Um é comunicado pelo título: eliminar os auxiliares e retornar sozinho com o ouro. O outro exige escapar de uma prisão controlada pelas forças do Norte e, com isso, também se livrar da traição preparada por Lynch.


O musculoso Bogart (Hércules Cortés)

Clyde McKay (Chuck Connors) na prisão das forças da União


Mate todos eles e volte só é produção rápida de baixíssimo orçamento. Os personagens chapados reúnem um conjunto de surrados e estúpidos estereótipos. O roteiro extraído de história de Tito Carpi e Enzo G. Castellari nada aprofunda ou humaniza. Apenas apresenta robôs programados a executar um trabalho. As filmagens tiveram lugar na Espanha, nas locações do Desierto de Tabernas, em Almeria, Andaluzia. Entre as poucas qualidades estão o bom uso das locações e o ritmo acelerado e ríspido da narrativa — o que exigiu atenta operação de câmeras e tomadas de diversos ângulos. Como não poderia deixar de ser em se tratando de westerns europeus, a trilha musical de Francesco De Masi garante parte do interesse.


Chuck Connors como Clyde McKay

O campo de trabalhos forçados da prisão nortista


No balanço final sobra pouquíssimo de quase nada.





Roteiro: Tito Carpi, Enzo G. Castellari, Joaquín Romero Hernández, Francesco Scardamaglia, a partir de história de Tito Carpi e Enzo G. Castellari. Direção de fotografia (Technicolor, Techniscope): Alejandro Ulloa. Música: Francesco De Masi. Montagem: Tatiana Casini Morigi. Produção de linha: Maurizio Amati. Continuidade: Maria Luisa Merci. Figurinos: Enzo Bulgarelli. Assistente de maquiagem: Cesare Paciotti. Penteados: Ada Palombi. Chefe do departamento de maquiagem: Euclide Santoli. Supervisão de produção: Ricardo Bonilla (Espanha), Vittorio Noia. Gerente de produção: Mario Mariani. Assistente de gerente de produção: Roberto Onorati. Assistentes de direção: Mariano Canales (Espanha), Carlo Moscovini. Assistente de decoração: Lorenzo Baraldi. Decoração: Enzo Bulgarelli (Itália), Jaime Pérez Cubero (Espanha). Operador de boom: Giovanni Fratarcangeli. Mixagem de som: Mario Morigi. Engenharia de som: Pietro Vesperini. Efeitos especiais: Eugenio Ascani, Pablo Pérez. Efeitos visuais: Emilio Ruiz del Rio. Dublê: Miguel Pedregosa. Fotografia de cena: Antonio Benetti. Operador de câmera: Giovanni Bergamini. Assistente de câmera: Salvatore Caruso. Assistente de figurinos: Stefano Bulgarelli. Interpretação da canção-tema: Raul Lovecchio. Diálogos em inglês: Leonardo Scavino. Instrutor de acrobacias: Giorgio Ubaldi. Tempo de exibição: 100 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976)

domingo, 6 de maio de 2018

O FASCINANTE, TERRÍVEL E APOCALÍPTICO UNIVERSO DO DR. HELLSTROM

Documentários sobre insetos e aracnídeos existem aos montes, principalmente em canais versados nas particularidades do mundo natural das TVs por assinatura. Há alguns anos os cinemas exibiram com relativo sucesso o francês Microcosmos (Microcosmos: le peuple de l'herbe, 1996), de Claude Nuridsany e Marie Pérennou. Encantou o grande público com a visão idílica e graciosa dos insetos encontrados nos jardins, prados e lagoas. É praticamente um contraponto romântico à terrível, inquietante e premonitória realização de 1971 a cargo de Walon Green — roteirista de Meu ódio será sua herança (The wild bunch), de Sam Peckinpah — e Ed Spiegel: o raro documentário dramatizado A crônica de Hellstrom (The Hellstrom chronicle). É apresentado e narrado pelo entomólogo interpretado pelo ator Lawrence Pressman, o Dr. Nills Hellstrom. Pesquisador fora do esquadro, pouco dado às exigências de objetividade e precisão do discurso científico, foi praticamente banido do mundo acadêmico ao assumir a apostólica missão de alertar o público, com todas as tintas, sobre o papel reservado aos insetos no futuro do planeta. Os seres humanos estão previamente derrotados. Não herdarão a Terra e disso podem ser responsabilizados. Ficção, antecipação e realidade se misturam na pregação do Dr. Hellstrom enquanto câmeras de alta definição invadem os aspectos mais recônditos de cupinzeiros, formigueiros e colmeias para tratar da resistência, plasticidade e vocação à sobrevivência dos insetos frente às mais variadas catástrofes e ameaças humanas. Aranhas, escorpiões e plantas carnívoras também são considerados. Porém, os bichinhos de seis patas têm primazia quase absoluta. São ampliados a ponto de serem captados em fascinantes e nítidos closes. O que se vê não é bonito: a luta pela vida nas dimensões mais cruas. Espectadores facilmente impressionáveis podem perder o sono durante dias, como aconteceu comigo ao ser surpreendido por A crônica de Hellstrom em 1974, quando escrevi a apreciação a seguir.





A crônica de Hellstrom

The Hellstrom chronicle

Direção:
Walon Green, Ed Spiegel
Produção:
Walon Green
Wolper Pictures
EUA — 1971
Elenco:
Lawrence Pressman e os não creditados Conlan Carter, Ian McShane (cenas de arquivo), Suzanne Pleshette (cenas de arquivo).



O diretor Walon Green


Sem o melhor a fazer, resolvi ver A crônica de Hellstrom em plena semana útil. Nada sabia a respeito. O cartaz, pouco atraente, não mobilizou a atenção. Pareceu filme de ficção científica. Como apreciador do gênero, pensei: menos mal. Surpreendentemente, revelou-se rara e hipnótica experiência. O fascínio também decorreu de momentos apavorantes, terrivelmente reais. Facilmente impressionável, tive prejudicadas as noites de sono pelos dias seguintes. Muito depois, soube: a realização de Walon Green — roteirista e autor da história de Meu ódio será sua herança (The wild bunch, 1969), de Sam Peckinpah — em parceria com Ed Spiegel mereceu prêmios e se fez preferida por reputados entomólogos em vista das verdades científicas expostas e especulações no mínimo arriscadas quanto ao futuro do planeta, da humanidade e, principalmente, dos resistentes e plásticos insetos.


O filme e a direção fizeram jus, em 1971, ao Grand Prix Technique no Festival de Cannes e, no ano seguinte, ao Oscar de Melhor Documentário e Flaherty Documentary Award do British Academy Film Awards (BAFTA). Em 1972, David Seltzer foi indicado ao prêmio de Melhor Roteiro Dramático Original do Writers Guild of America.


Aparentemente, A crônica de Hellstrom é documentário. Porém, a participação do ator Lawrence Pressman na pele do divertido narrador e fictício entomólogo Nills Hellstrom expande as limitadas fronteiras da classificação genérica. Apesar de não tratar apenas de insetos — plantas carnívoras, aranhas e escorpiões também são mostrados —, estes recebem o grosso das atenções. O personagem, misto de cientista e divulgador, faz, de início, uma abordagem darwiniana da evolução das espécies e também trata poeticamente da criação pelo prisma bíblico-religioso. Porém, logo abandona as veleidades para afirmar bombasticamente: “A Terra não foi criada pela gentil carícia do amor, mas por brutal violência da violação”. Acrescenta: somente a superficial percepção da existência aceitaria a ideia de uma natureza idílica. Logo a câmera prescruta gramados, superfície do solo, ares, árvores, amontoados de rochas, restos de construção, cupinzeiros e formigueiros para revelar a brutal aspereza da luta pela vida em patamares quase inacessíveis à observação humana. O que se vê não é bonito: ataques, emboscadas, desmembramentos, perfídias e matanças friamente cometidas por criaturas em tudo mais adaptadas na luta pela sobrevivência. Parecem saber — apesar de despidas de qualquer traço de racionalidade — que viver não é fritar bolinhos. Durante a exposição, Hellstrom pergunta: Quem herdará a Terra? O homem, considerado superior e preferencial, apoiado em tecnologias e princípios morais? Ou o inseto insignificante, simplesmente moldado a viver por viver?


Lawrence Pressman interpreta o entomólogo Dr. Nills Hellstrom

O close-up de uma abelha


A partir daí começa um show deliciosamente exagerado, engenhoso e repleto de dramaticidade. Descreve em tons proféticos a trajetória dos minúsculos espécimes de seis patas ao longo de aproximados 300 milhões de anos e o faz nos seguintes termos: “A cada geração novas experiências moldam esses seres em espectros ilimitados, praticamente inimagináveis”. Nills Hellstrom chama para si a missão algo apostólica de espalhar a “boa nova” que desbanca o ser humano do topo do pedestal para substituí-lo por organismos considerados desprezíveis. Estes, apesar de tanta diferenciação e especialização, agem em uníssono em prol da sobrevivência grupal. Comparativamente, o homem individualista, egoísta e fratricida não terá condições de sobreviver como espécie diante de uma hecatombe nuclear ou pelo impacto de um corpo celeste de grandes proporções.


Este filme incomum tem em Nills Hellstrom mestre de cerimônias dos mais inusitados, a começar pelo modo como se apresenta. Não é um acadêmico no sentido estrito. Ao contrário, é um inconformado pesquisador pouco dado às objetividades científicas. Foi banido dos círculos oficiais. Perdeu financiamentos, apoio de colegas e amizades desde que assumiu a tarefa de divulgar a verdade sobre os insetos e o papel a eles reservado no porvir do planeta.


O cupinzeiro, colônia de térmitas


Com ênfase, Nills Hellstrom destaca as principais razões da ameaça. Residem no próprio homem, incapaz de lidar com o meio no qual vive. Para combater insetos e mais pragas que destroem alimentos e transmitem incontáveis moléstias, envenena a atmosfera e cursos d’água, desmata e desertifica. Torna a Terra inviável à própria sobrevivência. Enquanto isso, hexapodas e octópodes são capazes de se adaptar e sobreviver em condições às mais adversas. Desenvolvem rápida resistência aos mais diversos defensivos. Enquanto os homens destroem o planeta no esforço vão e paradoxal de dominá-lo, os insetos herdarão tudo o que restar. Em caso de sobrevivência a uma conflagração nuclear de alcance global, Hellstrom afirma: os seres humanos necessitarão de um a dois milhões de anos para recuperar o contingente populacional e ganhos civilizatórios perdidos. Comparativamente, os insetos levariam apenas três semanas. Ilustra a possibilidade ao disparar potentes jatos d’água contra um formigueiro. De início, provoca destruição de aparência irremediável. Na realidade, não passa de simples percalço. Tudo será devidamente reconstruído em pouquíssimo tempo. DDT e outros pesticidas apenas causaram degradação ambiental pela morte colateral de variados outros seres: pássaros, as utilíssimas e frágeis abelhas etc. Porém, gafanhotos e outras pragas imediatamente aprendem a conviver com resistência renovada às ameaças.


Por outro lado, graças aos sentimentos e raciocínio, os seres humanos não se oferecem olimpicamente ao sacrifício pelo bem de todos. Já os insetos não temem a morte quando se trata da perpetuação de suas comunidades. Numa colmeia, os zangões são úteis apenas para fecundar a rainha. Feito isso, são despejados e morrem de fome. Se permanecessem nas colônias, seriam apenas consumidores parasitários de recursos. Os insetos têm comportamento altamente mecanizado, imediato e instrumentalizado. Cumprem papéis aos quais foram geneticamente moldados, sem delongas e considerações. Da mesma forma as aranhas: o macho da viúva-negra é imediatamente imobilizado pela fêmea ao terminar a fecundação. Será embalado e preservado para alimentar os filhotes prontos a nascer.


Abelha em polinização

  
Diz Hellstrom: insetos e aracnídeos são programados para agir em nome do todo ou da sobrevivência da espécie. Desse modo, são equipados com algo parecido a uma inteligência coletiva consubstanciada na total capacidade de trabalho especializado e em instintos os mais afiados. Com tais características, travam luta surda e incansável pelo domínio do planeta. Mais que animais sociais, são como milagres de engenharia com seus precisos aparatos de caça, combate e defesa, além de todos os cuidados necessários para garantir segurança aos herdeiros. É algo cientificamente sabido. Mesmo assim, Hellstrom faz questão de confirmar com a simples e catastrófica intervenção em uma colmeia. Removeu a rainha. Com a vacância, as operárias logo se mobilizam. Convertem simples estágios larvais em potenciais candidatas ao trono pela injeção de geleia real. Com o nascimento da primeira rainha, as demais possibilidades são destruídas. Zangões também são criados e enviados para fecundar a nova majestade em voo nupcial. A seguir, ela terá por toda a vida a incumbência de garantir a produção de ovos para assegurar o futuro da colmeia. Será alimentada pelas operárias e protegida por guardiões prontos a repelir ataques potencialmente lesivos de invasores externos quais formigas e vespas. Idêntico comportamento em prol da sobrevivência grupal é percebido em cupinzeiros e formigueiros.


A sequência final, reservada às africanas formigas-correição, é assombrosa de tão terrível e reveladora. Também não deixa de ser fascinante vê-las em ação, como se marchassem indefinidamente para algum lugar misterioso enquanto destroem e devoram toda a vida que encontram à frente, inclusive animais de grande porte. Atravessam volumosos cursos de água graças às pontes e elevatórias improvisados pelos corpos de semelhantes dispostos ao supremo sacrifício pelo bem da coletividade.


As formigas-correição em franca atividade sobre um lagarto...

...e às voltas com os restos de uma borboleta.

  
Tipos variados de insetos percorrem a tela em atividades típicas que envolvem nascimento, alimentação, reprodução e morte. O filme é um espetáculo recheado de macro-visões de capturas e atos inclementes de esquartejamento e devoramento. Pinças, ferrões, garras, presas e patas são vistas em ação pelos mais variados ângulos. O funcionamento de colmeias, cupinzeiros e formigueiros é coberto nos mínimos detalhes, com todas as etapas de desenvolvimento dos seres: dos ovos às larvas e aos estágios adultos. Batalhas de morte entre formigas, o percurso completo de traças, o curto estágio vital de apenas 17 horas de borboletas desde a última metamorfose, perigosos louva-a-deus no ataque, a defesa dos bichos-pau, besouros lutando pela vida, formigas atacando lagartos, gafanhotos ameaçando o voo de aviões pulverizadores... Os aparentemente simples e primitivos insetos — e seres com eles confundidos — são mostrados em variados níveis de exigência dados pela programação instintiva. O plano final, premonitório segundo as intenções do filme, exibe ameaçador e vitorioso besouro de chifre filmado contra a crepuscular luz do sol. Praticamente encobre com o frontal aparato de defesa a imagem alaranjada do astro-rei. É uma tomada para impressionar e coroar a realização com o devido impacto.


Os instantes finais de A crônica de Hellstrom


A crônica de Hellstrom está entre os melhores documentários dramáticos sobre o mundo natural. Embala na justa medida a ficção com o factual. Para aguçar o interesse, cenas de filmes que se valeram de insetos são inseridas: A selva nua (The naked jungle, 1954), de Byron Haskin; Enquanto viverem as ilusões (If it's Tuesday, this must Be Belgium, 1964), de Mel Stuart; e o seminal O mundo em perigo (Them!, 1954), de Gordon Douglas. Walon Green e Ed Spiegel — este dirigiu apenas as sequências com o Dr. Hellstrom — entregaram um produto informativo, educativo, perspicaz e visualmente deslumbrante.


As imagens foram obtidas por câmeras especiais de alta velocidade e definição. Desvendaram a intimidade das colonias e observaram os dados mais prosaicos de existências que, no mais das vezes, passam despercebidas. Muitas imagens são nítidos e impressionantes close-up de curiosas e pouco glamourosas faces. A abertura se vale de um fantástico zoom iniciado na elevada varanda de um prédio em New York e encerrado nos níveis inferiores de um gramado do Central Park. Aí, diligentes formigas estão entregues à labuta cotidiana, indiferentes e invisíveis aos indivíduos que ali passam e descansam.


O Dr. Nills Hellstom (Lawrence Pressman) e a ampliação de uma de suas assustadoras criaturas


Lalo Shifrin compôs uma música à base de frenéticas vibrações de baterias e cordas. Obteve acordes que reproduzem os sons ampliados dos insetos. Praticamente recriou uma natureza para a grandeza do cinema, feita de rumores sinistros que lembram terríveis previsões apocalípticas.


Vespas


A companhia produtora Wolper Pictures, do renomado David L. Wolper, teve proeminência na geração de documentários de qualidade durante os anos 60. O agricultor entrevistado por Nills Hellstron é, na verdade, um personagem fictício interpretado pelo não creditado Conlan Carter.




Música: Lalo Schifrin. Roteiro: David Seltzer. Produção associada: Sascha Schneider, Linda May Strawn (não creditada). Produção executiva: David L. Wolper. Direção de Fotografia (cores): Helmuth Barth, Walon Green, Vilis Lapenieks (cenas com o Dr. Hellstrom). Montagem: John Soh. Maquiagem: Lawrence Abbott, Scott Hamilton. Gerente de unidade: Andy Babbish. Supervisão da pós-produção: George Fredrick. Executivo responsável pela produção: Conrad Holzgang. Edição de efeitos sonoros: Charles L. Campbell. Gravação de som: David M. Ronne. Fotografia adicional: Ferdinando Armati, J. M. Boufle, Tony Coggans, James Fonseca. Eletricista-chefe: Ross A. Maehl, Heinz Sielmann, Gerald Thompson. Direção de fotografia das sequências com insetos: Ken Middleham. Chefe de iluminação das sequências com o Dr.Hellstron: Glenn Roland. Assistente de câmera: Bob Stein. Supervisão musical: Jack K. Tillar. Assistente de produção: Diane Hovanesian. Continuidade: Malcolm Leo. Produção associada: Marge Pinns. Agradecimentos especiais a: Gérald Calderon, Conlan Carter, Jim Dannaldson, Philip Leakey, Lloyd Martin, John Moore, Lenita Moore, Jim Robertson, Monty C. Ruben, Linda May Strawn, Mel Stuart. Reconhecimentos da produção a: Anti-Locust Research Center (Londres), California Institute of Technology (Caltech), Entomological Society of America, Griffith Observatory, Lorquin Entomological Society, National Museums of Kenya, U. S. Atomic Energy Commission, University of California, Los Angeles (UCLA). Tempo de exibição: 90 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)