domingo, 11 de março de 2018

HUMBERTO MAURO NA TRADUÇÃO DE ALEX VIANY

Para melhores e mais completas informações sobre a totalidade da filmografia de Humberto Mauro, o cinéfilo comprometido com os fatos deve buscar antigos catálogos do extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE) ou o livro Humberto Mauro: sua vida/sua arte/sua trajetória no cinema, de Alex Viany ― publicado no Rio de Janeiro, em 1978, pela Artenova associada à Embrafilme. As filmografias divulgadas pelos sites do Internet Movie Database (IMDb) e Adoro Cinema ― para ficar apenas com estes exemplos ― são acintosamente enganadoras de tão incompletas. Mal arranham a quarta parte uma carreira formada por 12 longas e pouco mais de 250 curtas. O mestre mineiro, em 1947, idealizou um filme que jamais pôde concretizar. Cinco anos depois, registrou o argumento em página datilografada. Em 1967, durante série de entrevistas com Mauro, o surpreso Alex Viany recebeu-a de presente. Imediatamente, transformou-a em roteiro com a ajuda de David Neves, Miguel Borges e do próprio autor. O material resultou, depois de muitos contratempos, na realização de um filme que pretendia reverenciar o espírito e a carreira do mineiro de Volta Grande ― tomado pela geração do Cinema Novo como modelo a seguir em decorrência do olhar original, marcadamente brasileiro. Infelizmente, A noiva da cidade (1976) falha clamorosamente na tentativa de reverenciar o genuíno e único Humberto Mauro. O elenco não ajuda, a começar por Elke Maravilha escalada para interpretar a personagem-título. Muitos elementos em cena resultaram numa narrativa dispersa, fragmentada e sem direção. No geral, apesar de todos os cuidados de Alex Viany, é um filme insosso, artificial, desprovido de marca autoral. Não honra o diretor; muito menos o homenageado. Segue apreciação escrita em 1979.






A noiva da cidade


Direção:
Alex Viany
Produção:
Alex Viany
Catavento Produções Cinematográficas, Embrafilme
Brasil ― 1976
Elenco:
Elke Maravilha, Jorge Gomes, Paulo Porto, Grande Otelo, Betina Viany, Léa Garcia, Zé Rodrix, Wilson Grey, Carlos Imperial, Nélson Dantas, Gracinda Freire, Judy Miller, Antero de Oliveira, Roberto Azevedo, Ivone Gomes, Telma Reston, Fernando Reski, Vera Setta, Claúdio D’Oliani, Zezé D’Álice, Bibi Viany, Roberto Bonfim, Rafael de Carvalho, José Melo, Roberto Bataglin, Wandique Vandré, Flávio Migliaccio, Sônia de Paula, Ivã de Almeida, Augusto César Machado, Augusto Olímpio, Ubirajara Moreira, Olívia Pineschi, Denise Barroso, Hugo Bidet, Ana Cristina, Zé Heleno, Davi Pinheiro, Cláudia Versiani, Susana de Moraes, Kátia Suquini, Isolda Cresta, Carlos Alberto de Souza, Carmem Alvares, Suzana Faini, Guta Machado, Irving São Paulo, Mário Tupinambá, Paulo César de Oliveira, Tamara Taxman, Alcir Damata, Candoca, Rogério Goulart, Lurdinha Marcondes, Paulo Pestana, Ronald F. Monteiro, Sidney Marques, Mirtes Blem, Sandra Escobar, Marcelo Aguiar, Mary Neubauer, Jota Barroso, Humberto Mauro, Augusto Machado de Campos, Kátia Grumberg, Josephine Helene, Dalma Ribas.



O diretor Alex Viany e o mestre Humberto Mauro ladeados pelos atores Jorge Gomes e Elke Maravilha

Anos 60: Alex Viany entrevista Humberto Mauro


Apesar da curta filmografia, Alex Viany é uma lenda. Presta, com A noiva da cidade, homenagem ao ainda mais lendário Humberto Mauro ― pioneiro do cinema brasileiro e síntese bem acabada das ambições de David Wark Griffith e John Ford, mediadas por Henry King. Desde a estreia, em 1925, Mauro realizou 12 longas e mais de 250 curtas. Destes, a maioria integra o acervo do extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Em 1947 ― três anos antes de concluir o último longa, o notável O canto da saudade ―, teve as primeiras ideias de um projeto à época ambicioso: A noiva da cidade. Em 1952, registra o argumento em página datilografada. Jamais pôde concretizá-lo. As razões decorrem dos altos custos da produção e do significativo número de atores e figurantes.


Jornalista, crítico, pesquisador de cinema, roteirista, diretor de produção e realizador, Alex Viany é ― conforme definição própria ― cineasta bissexto e admirador inconteste de Humberto Mauro. Enquanto este foi unanimemente aceito pela geração do Cinema Novo como marco de uma cinematografia brasileira original e modelo a ser seguido, Viany é realizador do lendário e pouco visto Agulha no palheiro (1952), obra impregnada pelo Neorrealismo Italiano e considerada pontapé inicial da carreira de Nelson Pereira dos Santos ― da qual foi assistente de direção ― e do cinema brasileiro de temática social surgido em meados dos anos 50: Rio 40 graus (1955), Rio Zona Norte (1955) e O Boca de Ouro (1963), de Nelson Pereira dos Santos; O grande momento (1958), de Roberto Santos; Rua sem sol (1954) e Sol sobre lama (1963), de Viany ― responsável também pelos curtas A máquina e o sonho (1974); Humberto Mauro, coração do bom (1978), Maxixe, a dança proibida (1979), e Ana (1954). Este foi transformado em segmento brasileiro da produção internacional Rosa dos ventos (Die windrose, 1956), organizada por Joris Ivens e da qual participaram o francês Yannick Bellon, Alberto Cavalcanti em parceria com o russo Sergei Gerasimov, e o italiano Gillo Pontecorvo.


Elke Maravilha, intérprete de Daniela, com Humberto Mauro nas locações de A noiva da cidade


Em 1967, durante contatos com Mauro para entrevistas que resultaram no livro Humberto Mauro: sua vida/sua arte/sua trajetória no cinema[1], Viany é apresentado à página datilografada com o argumento de A noiva da cidade. Para sua surpresa, recebe-a de presente. Entusiasmado, resolve transformá-la em roteiro. Chama David Neves para auxiliá-lo. Entretanto, o processo de gestação será lento. Apenas em 1973 será finalizado, com aportes de Miguel Borges e do próprio Humberto Mauro. O original sofreu alguns retoques, a maioria de atualização da trama. Fora isso, Lúcia, a personagem-título, teve o nome modificado para Daniela. De início seria interpretada por Dina Sfat. Porém, dada a gravidez da atriz, entra em cena um mistério inexplicável, inclusive da parte do diretor: por que Elke Maravilha substituiu Sfat? Não seria mais razoável escalar alguém de perfil semelhante? A alternativa foi, no mínimo, radical e insólita.


Entre a finalização do roteiro e o lançamento comercial, muita água rolou. O empreendimento enfrentou inúmeros percalços, alguns previstos desde os anos 50: os custos e o número de personagens. Viany amaciou essas pressões com a força do carisma pessoal e em apelos emocionados à homenagem prestada por A noiva da cidade a Humberto Mauro. Muitos atores abriram mão dos cachês. A produção tomou ares de cooperativa. As tomadas tiveram lugar nas mesmas paisagens que permitiram o florescimento dos filmes de Mauro no Ciclo de Cataguazes: nesta cidade, em Volta Grande e Angustura. Pouquíssimas cenas foram rodadas no Rio de Janeiro. Concluída essa etapa, veio a demorada pós-produção. Muito tempo foi despendido até Viany e David Neves ― diretor de fotografia ― manifestarem satisfação com a qualidade das cópias. A seguir, os problemas comuns a todos os cineastas brasileiros exigiram muita negociação e paciência: conseguir espaço para o lançamento no cada vez mais rarefeito mercado exibidor nacional. Concluído em 1976, A noiva da cidade chegou ao público três anos depois.



Acima e abaixo: Beto (Jorge Gomes) e Daniele (Elke Maravilha)


O filme ― uma fantasia lírica dominada pela brejeirice ― trata dos dramas vividos por Daniela (Maravilha), atriz de renome internacional assoberbada pelos compromissos e artifícios da cidade grande. Estressada, é aconselhada por médicos a um longo período de repouso. Retorna, assim, à vida simples em Catavento ― terra natal no interior de Minas Gerais. Aí, segundo as intenções originais de Mauro, reaprenderia a viver verdadeiramente.


Em grande estilo, no controle do próprio avião, Daniela causa furor ao reencontrar as origens. Mal chega e tira a cidade do sossego. Ela mesma não terá oportunidades de repouso. Todos querem uma casquinha da filha mais famosa do lugar: políticos, fãs, caçadores de autógrafos e curiosos. Logo percebe: perdeu autonomia em Catavento; tornou-se patrimônio de todos. Os poucos amigos leais tentam protegê-la do assédio, principalmente o famoso cantor Beto (Jorge Gomes). Como ela, também correu o mundo. Porém, jamais perdeu contato com as origens. Diante da impossibilidade de ter a paz, a garota assume postura mística e se deixa envolver pelo encanto das paragens naturais mineiras. Até desaparecer misteriosamente, levada pelo vento.


Beto (Jorge Gomes) e Lindalva (Betina Viany), melhores amigos de Daniela

Líbero (Grande Otelo) e Dr. Carlão (Carlos Imperial)

Beto (Jorge Gomes), Daniela (Elke Maravilha) e Plácido (Wilson Grey)


Nas entrevistas, Viany deixava claro o compromisso de resguardar a essencialidade maureana da história. Dizia: “Tudo o que há de bom no filme pertence a Humberto Mauro; tudo o que houver de falho e ruim o responsável é Alex Viany”. Apesar de simples, A noiva da cidade sofreu um complexo de males. A princípio, foi atropelado pelo número excessivo de elementos humanos em cena. Muitos atores tiveram que ser encaixados em algum ponto da história. Por causa disso e de questões advindas do roteiro, resultou numa sucessão de episódios fragmentados que comprometeram a continuidade e fluidez. Todo o conjunto fica ainda mais prejudicado pela excessiva metragem de 2h10min. Não seria problemática se a narrativa avançasse como estrutura coesa e homogênea. A direção parece ausente. Viany se omitiu como organizador, provavelmente por causa da tentativa de se mostrar excessivamente reverencial a Mauro. Percebem-se influências maureanas, mas faltam o dinamismo e encanto característicos do cineasta de Sangue mineiro (1929), Lábios sem beijo (1930), Ganga bruta (1932), Cidade-mulher (1936), Engenhos e usinas (1955), A velha a fiar (1964) e, entre muitos outros, Carro de bois (1974). Sobra uma obra sem sabor, artificialíssima, com ares de concebida ao acaso, desprovida, portanto, de marca autoral. Não pertence a Viany e muito menos honra o cinema e espírito de Mauro. O elenco sofre com tudo isso. Está visivelmente desorientado.


Dr. Carlão (Carlos Imperial),  Galã (Roberto Bataglin), Beto (Jorge Gomes), Daniela (Elke Maravilha) etc.


Se uma das qualidades fundamentais dos filmes de Humberto Mauro decorre de um gênio capaz de conferir autenticidade ou naturalidade às imagens, a encenação que resulta da direção de Viany e da fotografia de Neves está muito distante disso. Às vezes A noiva da cidade é histriônico quando não deveria. Nesse sentido, é mais um produto com a marca de Elke Maravilha.


Lambari (Irving São Paulo) e Daniela (Elke Maravilha)


Imagens originais de Mauro surgem na história, como de A velha a fiar. As concepções do mestre mineiro a respeito de progresso e natureza foram ajustadas ao discurso de Beto, convertido numa espécie de alter ego. Para compor o personagem, Viany sondou Chico Buarque, Cláudio Marzo e Paulo José. Por fim, aceitou a sugestão da filha Betina Viany e ficou com Jorge Gomes ― notadamente um equívoco. Mauro, certamente, talvez preferisse ― se possível ― Gary Cooper. É uma de suas grandes frustrações: nunca pode contar com o ator de Matar ou morrer (High noon, 1952), de Fred Zinnemann, e Sargento York (Sergeant York, 1941), de Howard Hawks, fazendo ao menos uma pontinha, que fosse, em algum filme seu.


O cineasta estadunidense Orson Welles entre Alex Viany e o poeta Vinícius de Moraes
1942, quando da presença de Welles no Brasil para a realização do inacabado It's all true (É tudo verdade)


Música e canções: Francis Hime, Chico Buarque de Holanda, Paulo César Pinheiro. Direção de fotografia (Eastmancolor): David Neves, Ronaldo Nunes. Roteiro: Alex viany, Miguel Borges, David Neves, Humberto Mauro, desenvolvido a partir de argumento original de Humberto Mauro. Assistente de direção: Carlos del Pino. Assistente de câmera: Fernando Teixeira de Freitas. Cenografia: Jorge Bastos. Operador de câmera: Ronaldo Nunes. Som: Walter Goulart, Carlos Dela Riva. Montagem: Manfredo Caldas, Alex Viany. Figurinos: Ruy Land, Elke Maravilha. Maquiagem: Francisco Guedes Filho. Assistente de produção e supervisão da pós produção: Humberto Freire. Tempo de exibição: 130 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1979)




[1] Publicado em 1978, no Rio de Janeiro, pela Artenova em parceria com a Embrafilme.